Latest / Peças Raras - Você em sintonia com o rádio / #201 80 anos de Milton Nascimento, por João Marcello Bôscoli
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- 0:02Essas áreas. Olá, tudo bem?
- 0:11Eu sou o Marcelo abud. Seu podcast, ter radiofônico e
- 0:15estou de volta com nossas peças raras hoje para celebrar os 80
- 0:21anos de Milton Nascimento. Eu produzi um áudio para o
- 0:25instituto Claro, convido você a procurar aí o podcast do
- 0:30instituto, Claro, pode ser no Spotify, ou então vai no site do
- 0:34instituto, Claro, procura no Google.
- 0:36Só colocar podcast, instituto Claro, Milton Nascimento e você
- 0:41vai encontrar rapidinho esse conteúdo que está incrível em
- 0:45que eu conversei com o João Marcelo boscoli e também com o
- 0:49doutor em música pela USP, o professor William Teixeira, que
- 0:54fez um Belo trabalho. Uma análise sobre morro velho e
- 0:59é esse o tema. O mote do podcast de cidadania
- 1:03do instituto. Claro que você pode ouvir e tem
- 1:0610 minutos de duração. Está belíssimo, ainda tem na
- 1:10introdução uma versão exclusiva produzida pelo Reinaldo Bessa ao
- 1:15violão. Não é que lembra aí os a cortes
- 1:18da música morro velho e aqui no peças raras como eu faço.
- 1:23Às vezes eu vou trazer a íntegra dos bastidores da conversa com
- 1:28um dos entrevistados. Você vai ouvir o João Marcelo
- 1:32bôscoli, que tem, Claro, toda uma emoção para falar sobre essa
- 1:36música, inclusive, foi gravada pela mãe dele.
- 1:39A Elis Regina há 45 anos, em 1977.
- 1:48Bom, obrigado por ter colocado essa essa, esse momento na
- 1:54minha, na minha vida hoje à tarde, assim não estava
- 1:56esperando. Foi muito bom, que realmente
- 1:58ama. É uma das minhas músicas
- 2:00favoritas. E toda atmosfera que você
- 2:02constrói para a gente conversar e tudo muito cuidadoso, não é
- 2:06obrigado, viu? Obrigado de coração.
- 2:10Então ouça esse papo muito, muito bacana com o João Marcelo
- 2:15bôscoli. É com uma memória afetiva e
- 2:18também a análise da música morro velho, do Milton Nascimento,
- 2:23para celebrar os 80 anos deste grande artista mineiro e do
- 2:29mundo. Olá, eu sou João Marcelo
- 2:31boscoli, sou produtor musical e completamente apaixonado por
- 2:38música. João Marcello bôscoli que
- 2:40lembranças você tem da época? Em que a sua mãe gravou o morro
- 2:44velho, vamos começar por esse lado afetivo, que é sempre muito
- 2:47legal quando você conta. Olha, na verdade é.
- 2:52É uma sensação física, mais do que uma imagem.
- 2:58Porque pela idade que eu tinha, não é tipo.
- 3:02Um menos de 5 anos, mas é uma música que.
- 3:07Quando eu escuto, me vem uma memória física, como se fosse
- 3:11algo, sabe quando falam de memória muscular, não é?
- 3:15Então eu eu tenho década após década.
- 3:19Quase que a mesma sensação física de ouvir.
- 3:23Me dá uma. Com uma sensação de
- 3:27pertencimento, sabe? E eu, naturalmente, com o passar
- 3:31dos anos, fui entendendo a letra, não é?
- 3:33E fui me apaixonando mais pela música.
- 3:36Mas a memória mais antiga é física.
- 3:40Não é uma imagem, um texto, uma palavra.
- 3:43É uma sensação física causada pela música.
- 3:48João pegando esse ponto de que com o tempo, você foi entendendo
- 3:52a letra e se apaixonando mais, o que que essa música representava
- 3:55quando você era criança? Você lembra que cents ações que
- 3:58ela te trazia quando você era criança?
- 4:01Nas suas primeiras impressões? A letra, ela fala de um ambiente
- 4:06que eu me identifiquei, né? Automaticamente, por causa do
- 4:10fato de morar nas Montanhas, então, embora ela não fala
- 4:14exatamente da região onde eu estava, que é as Montanhas aqui.
- 4:19Perto de São Paulo, da cidade de São Paulo, aliás, Serra da
- 4:22Cantareira. Ali é, eu vi algumas coisas pela
- 4:27primeira vez porque ali fala de Sertão da minha Terra.
- 4:31Fazenda tinha uma fazenda próxima à minha casa, onde a
- 4:35gente ia comprar. É o leite, não é?
- 4:38E queijo. O negócio do peixe, bom, não é,
- 4:41dá no riacho, tinha lá também o riacho na Serra da Cantareira.
- 4:45A molecada ia jogar pedrinha na superfície, enfim, às vezes um
- 4:50outro tentava pescar, mas não era muito, não tinha muito peixe
- 4:54ali, era na verdade. Depois eu descobri que era uma
- 4:57reserva da companhia pública de água.
- 5:01E aí vai sentar no morro e ver tudo verdinho, não é?
- 5:05Aí também que tem um negócio da enxada, não é?
- 5:08A enxada foi uma das primeiras ferramentas que eu conheci.
- 5:11É exatamente no trabalho ali da casa antes dela ser construída,
- 5:15a gente ia visitar e tinha o pessoal com a enxada.
- 5:18Depois do trator, naturalmente, então parecia que estava
- 5:22descrevendo aquele lugar novo para mim que eu estava
- 5:26descobrindo. Ali parecia uma descrição
- 5:30musical do lugar que eu estava ali descobrindo.
- 5:33Ao mesmo tempo, tempo. Na minha Terra?
- 5:40Fazenda é o camarada que ao chão se deu.
- 5:47Fez a obrigação com força, parece até que tudo aquilo ali a
- 5:56ser. Claro, a música tem várias
- 6:00camadas, não é? Depois eu fui entendendo um
- 6:02pouco mais do que se tratava aquela a letra, não é?
- 6:06Mas essa primeira camada que seria, no que ela trata o
- 6:10ambientação. Se fosse um filme, a locação do
- 6:14filme, né? A beleza das cores, os aromas
- 6:17ali. E aí, com o tempo, eu fui
- 6:20entendendo um pouco mais o roteiro e o e o que o diálogo
- 6:24ali, mantendo essa metáfora, quis dizer.
- 6:27E uma pergunta é, você sendo filho branco, digamos assim?
- 6:34Você viveu alguma experiência parecida quando você começou a
- 6:37entender a letra? É o que ela representa hoje para
- 6:41você? E se você viveu alguma
- 6:42experiência na sua vida, de ter de se separar de alguma criança
- 6:46negra por alguma condição de estar num, num outro status
- 6:50social, se isso aconteceu na sua vida ou não?
- 6:52Na verdade, até a minha mãe morrer, eu não sabia da
- 6:55existência de algumas coisas do mundo.
- 6:57Aí não é o anti semitismo, o racismo, a homofobia.
- 7:03Era uma coisa para mim, desconhecida, porque não era um
- 7:05assunto dentro de casa, né? Pelo contrário, até é.
- 7:10Eu diria que numa outra medida especificamente.
- 7:13Pelo pela quantidade de artistas musicais pretos e pretas que eu
- 7:19adorava, havia algo mágico na negritude.
- 7:22Não é Claro que é apenas. É 11 sensação capturada por uma
- 7:27criança, mas isso nunca foi. É assunto, né?
- 7:32Nunca vi na minha frente nunca presencie.
- 7:34Ei, um ato de racismo na durante a minha infância até a morte da
- 7:39minha mãe, eu presidency eu soube uma vez que teve uma
- 7:42pessoa que ela gostava muito. Aqui no prédio que ela morava é
- 7:47foi pedido para aquela pessoa por ser preta, pegar o elevador
- 7:51de serviço. E a Elis é ficou muito brava EE.
- 7:56Se mudou do prédio, não é? Foi embora do prédio onde ela
- 7:58alugava ali, mas foi assim muito rápido mesmo.
- 8:02Isso aconteceu. Agora, de maneira geral, não nos
- 8:05estúdios de gravação. É no meu ambiente familiar.
- 8:09Isso não? Não, não havia.
- 8:11Inclusive, é quando eu morei em prédio, os meus amigos do prédio
- 8:17eram. É por 2 vezes.
- 8:19Eram 2 famílias que trabalhavam no prédio, eram os zeladores do
- 8:23prédio, né? Os filhos do zelador, com quem
- 8:26eu ouvia música, me identificava completamente, é através do
- 8:29gosto musical. Com quem eu saía para ir aos
- 8:33bailes. Não, eles eram um pouco um pouco
- 8:34mais velhos, e minha mãe é se sentia segura porque era um.
- 8:38Eram muito responsáveis, tanto em São Paulo quanto no Rio, Rio
- 8:42de branco. E tou preto.
- 8:47Correndo pela estrada, atrás de passarinho.
- 8:55Fé ela plantação adentro, crescendo os 2 meninos.
- 9:04Sempre pequenininho, o que eu senti foi durante a
- 9:09adolescência. Minha mãe já já não era mais
- 9:11viva. Eu fui visitar 11 desses amigos
- 9:14meus e ele EEA. Família tinha perdido o emprego
- 9:17e a família toda tinha é mudado para a favela e também aprendi
- 9:23que dentro da favela havia é regiões caras na favela e eles
- 9:27estavam numa região da favela que não era a melhor, não é a
- 9:31via ali na entrada da favela da Rocinha, imóveis é ruas.
- 9:36Mas bem preparadas, mais estruturadas.
- 9:38Mas eles não não estavam ali. Então, naquele momento, eu senti
- 9:43aquela, aquela, aquela pancada, né?
- 9:46Porque era uma era um amigo que ia junto comigo aos ensaios da
- 9:52minha mãe. Era um amigo que eu não.
- 9:55Eu não percebi essa diferença. Eu, eu, sobretudo no Rio de
- 9:58Janeiro, era na praia e também em São Paulo.
- 10:01Era no campo, então tem 11 grande nivelador ali na cabeça
- 10:05de uma criança, tá todo mundo igual.
- 10:07Quando o tempo passou, eu mudei para São Paulo e eu voltei para
- 10:11encontrar com esses. Com esses amigos.
- 10:13É, é, tinha desandado a vida deles, né?
- 10:15Mas trabalhando na minha casa, eu especificamente na Cantareira
- 10:19e tal, eu, eu. Eu, nunca, nunca vivi isso,
- 10:21cara, e isso talvez por isso me choque.
- 10:24É diariamente, né? Eu não consigo conceber isso,
- 10:29né? E percebo hoje conversando com
- 10:31os meus amigos que trabalham com isso, que são ativistas e são
- 10:35preocupados com essa. Construção não é de uma
- 10:39sociedade mais de qualitá e tal. Eu também percebi que em muitos
- 10:43momentos que eu achava que não havia, é esse tipo de
- 10:46manifestação racista, apenas eu não estava vendo, mas ali estava
- 10:50ali na rua, né? Nos lugares eu não percebia, né?
- 10:54Então essa é uma. É uma visão minha, né?
- 10:56E talvez seja uma visão parecida com a de muitos filhos de
- 11:00artistas que trabalham com música especificamente, não é
- 11:03perfeito e é bom até pensando no que você foi captando com o
- 11:08tempo agora. Tirando a sua experiência de
- 11:09vida, o que que essa música representa hoje, a partir da
- 11:14justamente de tudo o que você já analisou dela, tanto da letra
- 11:18quanto do arranjo que que ela representa hoje, na nossa
- 11:22cultura, na nossa história, eu acho que é uma música que é
- 11:26pouco conhecida perto do tamanho que ela tem, que ela representa
- 11:31a quantidade de interpretações possíveis, né?
- 11:34Como toda grande obra de arte, não é, ela tem muitas coisas
- 11:39numa só, né? É, e talvez isso seja uma beleza
- 11:41dela, me parece uma Jóia escondida, é um lugar é que você
- 11:46precisa. E caminhando para você
- 11:49descobrir. Não, ela não está.
- 11:50É na memória coletiva de maneira predominante ou no primeiro
- 11:56plano. Vamos dizer assim.
- 11:57Acho que essa música tem tudo, cara, tem tudo.
- 11:59Na minha opinião, essa música tem tudo.
- 12:02Porque é uma junção maravilhosa da da, da melodia com o que é
- 12:07dito, não é? Parece que que a melodia sem a
- 12:11letra, quando você canta, parece que ela já está.
- 12:14Falando disso, e a maneira através da qual Harmonia vai
- 12:18caminhando não é a progressão harmônica, ela vai criando 111
- 12:25atmosfera ou um solo, se você preferir.
- 12:28Que é em total consonância com o que está sendo dito, não é?
- 12:33Quando ela começa no Sertão da minha Terra para da, da, da, da,
- 12:35da, da, da, aparece alguém contando um negócio, né?
- 12:38E aí, quando vai caminhando, é como vou dizendo, ela vai
- 12:41ganhando 11 densidade assim dramática, junto com a letra,
- 12:46tudo vai ficando mais denso. Aí de repente vira a página, né?
- 12:51Aí tem um momento que fala, não esqueça amigo, eu vou voltar,
- 12:54some longe o trenzinho ao deus-dará é, é muito bonito, né?
- 12:58Parece. De novo, a melodia parece que
- 13:00vai para uma estação de trem mesmo, não é?
- 13:06Filho do senhor, vai embora. Tempo de estudo na cidade
- 13:15grande. Parte.
- 13:22Tenho os olhos tristes, deixando o companheiro na estação
- 13:29estante. E é, e é lindo como tem esse.
- 13:38Essa reviravolta final não é que é muito rápido, não é?
- 13:42Porque assim e a maior parte da letra estão os 2 convivendo ali,
- 13:46brincando. É pescando, vivendo ali, essa
- 13:52aquele Paraíso ali. Não é natural, aí rapidamente
- 13:56vai embora. Alguém dá uma saudade um dia,
- 13:59volta e volta já numa estrofe já resolve tudo, já deixa Claro que
- 14:05veio com a mocinha, ela é linda, ela ele já virou um doutor,
- 14:09agora vai mandar na fazenda, já tem nome de.
- 14:16E agora? A fazenda é quem vai.
- 14:25E seu velho camarada já não brinca mais, trabalha?
- 14:32Já? E aí o seu velho camarada já não
- 14:38brinca mais, trabalha? Cara, tipo, é, é um fechamento
- 14:43muito rápido, assim, parece realmente cinematográfico que
- 14:46vem construindo 11. Uma cena ali, uma história linda
- 14:52aí no final do do do. Nos últimos minutos do filme,
- 14:55vai embora, volta e resolve tudo muito rapidamente.
- 14:58Assim, é surpreendente o caminho que vai, porque quando você
- 15:03escuta a música pela primeira vez, é o início dela.
- 15:06Parece que é uma música romântica, não é uma música
- 15:10romântica lato sensu, né? Na acepção original do termo e
- 15:15aí você, você vai vendo que a história carrega o é outras
- 15:19coisas. Eu acho que isso foi feito com
- 15:21uma delicadeza. E com uma com 11, capacidade
- 15:25assim é artística, não é uma potência fora do comum.
- 15:29Sinceramente, é. É das minhas músicas favoritas
- 15:32na vida. Assim, acho muito delicada,
- 15:35muito. Muito delicado.
- 15:38E João pensando na escolha dessa música para o repertório da Elis
- 15:43é a música já existia há cerca de 10 anos, né?
- 15:47É o que que você acha que ela representa?
- 15:49Até nessa aproximação da Elis com o Milton Nascimento, essa
- 15:52música foi foi um Marco nesse sentido.
- 15:56A aproximação da Elis com o Milton ela se deu assim, é.
- 16:03Ao vivo, ali nos bastidores dos programas de televisão não é um
- 16:07encantamento, depois marca para mostrar o repertório.
- 16:10Então eu acho que muito no início.
- 16:14A eles é, se encantou com OOO Milton não é o ser humano e
- 16:20depois, com a obra dele, que realmente é algo muito original,
- 16:23não é o Milton, Claro, como toda a música, ela vem de algum lugar
- 16:28e tem as suas, as suas características, que você
- 16:31consegue perceber. Ele é alguém que que ouviu é
- 16:34Beatles, né? É alguém que ouviu o jazz
- 16:37especificamente, né? Claro, uma corrente do jazz.
- 16:39O jazz é algo gigantesco, é influenciado na minha visão.
- 16:44Por uma música Sacra, não é a música do Milton em muitos
- 16:47momentos e sacro, não é? E tem o timbre da voz dele.
- 16:50Quando eles põem a música, então.
- 16:52É 111, coisa muito original, né? Então quem está como a Elis
- 16:58estava, não é procurando o repertório, procurando, além do
- 17:01repertório, ter uma turma, né? Tem um grupo de pessoas com as
- 17:05quais ela pode contar e pedir música e tudo.
- 17:07Essa paixão foi instantânea e foi se alimentando através do
- 17:12tempo, porque como eu te falei, eu conheci essa música antes da
- 17:16Elis registrar ela em disco, era uma coisa que tocava em casa e
- 17:20ela cantarolava, então eu acho que.
- 17:23Entre, é aproximações, falando do ponto de vista profissional,
- 17:28aproximações e afastamentos. Nessa dinâmica, quando 11 pessoa
- 17:33está escolhendo o repertório, tem um período que ela gravou
- 17:36mais o Milton, período que ela gravou menos, né?
- 17:40É porque quem está constantemente em busca de novas
- 17:44cabeças de novas pessoas compondo ela não pode ficar a
- 17:48vida inteira, né? Fixada em 3 ou 4 nomes, né?
- 17:51A diversidade No No, No No repertório da Elis.
- 17:56É um reflexo disso, não é de uma busca constante, então ela teve
- 18:00momentos em que ela gravou mais. O Milton, depois ficou um tempo
- 18:03sem gravar e depois voltou a gravar.
- 18:05Então eu acho que é na composição geral da obra dele.
- 18:10Se o Milton Nascimento é, sem dúvida nenhuma uma figura é de
- 18:14destaque, né? Pelo volume de músicas que ela
- 18:17gravou, pelo número de entrevistas, onde ela demonstra
- 18:20empatia e fala a respeito dele, os elogios todos, não é?
- 18:24Há muitas músicas do Milton. Talvez porque seja dos
- 18:28compositores brasileiros. Aquele com que eu mais me
- 18:31identifico. Eu penso que Milton, isso é uma
- 18:35opinião realmente muito pessoal minha.
- 18:37Penso que Hamilton foi das coisas mais importantes que já
- 18:42apareceram na música popular do Brasil em todos os tempos.
- 18:45Eu amo meu nascimento e faz muito tempo.
- 18:47Eu faz uns 10 anos mais ou menos, e a participação dela,
- 18:51inclusive no clube da esquina 2, minha faixa favorita do álbum,
- 18:55os 2 juntos, é algo Divino no alerta em todos os alarmes.
- 19:02Mas se o homem que eu era voltou.
- 19:12Hall de sol, vi. Quando Descanso, é.
- 19:22Era luta, luta, bom de aventura. Bom, você já falou um pouco do
- 19:35que eu vou perguntar agora, mas talvez não, mas você edita e me
- 19:39faz parecer melhor, não que eu não, que eu ia perguntar é o
- 19:42seguinte, em relação a ao arranjo e escolha dos
- 19:45instrumentos, como que isso conversa com o discurso que a
- 19:50música traz? Essa escolha dos instrumentos,
- 19:52isso é, não sei se. Se você sente que dá pra falar
- 19:57das 2 versões da do Milton e da Elis de maneira diferente.
- 20:01Ou só o quanto que a versão da sua mãe acrescentou, é em
- 20:06relação? Justamente tem a participação do
- 20:07próprio Milton tocando, não é tudo, é essa questão da, da
- 20:11escolha dos instrumentos e do arranjo em relação ao discurso.
- 20:15Você já falou um pouquinho, mas se tiver alguma coisa que você
- 20:17acredita que, Claro que vale acrescentar, Claro.
- 20:21Nem sempre o Milton ficou feliz com as diversões que a Elis fez
- 20:25da música dele, não é? É.
- 20:29Já, já vi ele falando poxa, aquele arranjo ficou diferente
- 20:32do que eu imaginei e tal. Eu não faria daquele jeito
- 20:35porque ele, além de ser um compositor, ele é um intérprete,
- 20:39não é? E ele grava os seus próprios
- 20:41álbuns, então ele tem é a sua, a sua visão, né?
- 20:45Às vezes acontece uma paralaxe, né?
- 20:482 pessoas estão vendo o mesmo o mesmo ponto, mas cada um está
- 20:52num lugar e ver coisas que o outro não vê.
- 20:54Essa, especificamente, faz parte da lista extensa de gravações
- 20:58que ele gostou muito. Só achei importante lembrar que
- 21:01que há coisas que ele não gostou tanto, porque ele achava que.
- 21:06Que arregimentação dos instrumentos, o tamanho que
- 21:09ficou não tinha a ver com a natureza da da, da composição?
- 21:14Nesse caso, foi uma dessas muitas vezes que ele gostou
- 21:16muito, né? No morro velho, eu acho que ela
- 21:20conseguiu. É através da escolha dos
- 21:22instrumentos. Traduzir não só a letra, né o
- 21:26ambiente, mas traduzir o clima da música, porque para começar,
- 21:29é o. Ela tem.
- 21:30Na versão deles, ela tem poucos instrumentos, ou seja, ela tem
- 21:35muito espaço e quando você ouve essa essa, essa música e presta
- 21:39atenção na letra, está falando de paisagens que tem muito ar,
- 21:43né? Que tem muito espaço.
- 21:45Por mais que você imagine que seja, será que numa fazenda
- 21:48tenha muita, muita? Muitas árvores, muita uma
- 21:52vegetação abundante, mas o que me vem à cabeça é, é essa essa
- 21:57imagem aberta No No, no, no espaço.
- 21:59Então você tem muito. Você tem o Cel demais, você tem
- 22:03espaço? Ar passando, não é?
- 22:07E aí, Claro, eu não preciso nem falar do maios Davis, que acha
- 22:09que Oo que você não toca é mais importante do que você é.
- 22:13Toca é que a música está nos nos nas pausas, né?
- 22:17Que também é uma coisa que que o bethoven falou, enfim, tem esse
- 22:21espaço, é minimalista, a música respira, ela tem poro ela venta
- 22:26e a escolha dos instrumentos também, além da da quantidade da
- 22:30maneira através do qual através da qual esses instrumentos são
- 22:34dispostos na música. Tem o tipo de instrumento, né?
- 22:37Então quando você fala do Sertão e você traz um violão, um violão
- 22:40com a corda de aço, o cordofone, né?
- 22:44Essa, essa, esse segmento gigantesco aí de instrumentos
- 22:48que acompanham a humanidade há muito tempo.
- 22:50Onde você tem é uma determinada corda, às vezes de tripa, às
- 22:56vezes de metal. Às vezes é uma pele mais para
- 23:01frente através de uma liga através de uma invenção como o
- 23:04nylon, enfim. Essa, essa, essa solução dos
- 23:09cordofones, ela nos acompanha há muito tempo, então me parece que
- 23:13quando você tem um violão de aço tocando esse tipo de música com
- 23:18esse tipo de de tema, evoca, é em nós de mim.
- 23:23Esqueci especialmente algo que parece que está em Rai za do na,
- 23:28na, na, na mais do que Na Na memória mental, na memória
- 23:33física, novamente volta a história da memória física.
- 23:36Porque é algo que os nossos antepassados tocam há milênios,
- 23:40não é isso? As várias ações, o alaúde, a
- 23:44viola OOAA, Cora, né? No mundo inteiro e tem essa
- 23:49figura. Então, ao escolher um
- 23:51instrumento. É quase que milenar.
- 23:55Evidentemente que esses pequenos ajustes não é que a tecnologia
- 23:58trouxe para você chegar à uma viola tão bem feita e construída
- 24:02e tal como a que temos nesses nos últimos 100 e poucos anos.
- 24:07Claro que isso contribui, mas AA essência do do som é o mesmo,
- 24:10né? É uma corda no caso, uma corda
- 24:13de aço is tirada em 2 pontos de cada, entre 2 pontos.
- 24:17Com ali uma caixa acústica de madeira ressoando é tudo muito
- 24:21orgânico, é tudo muito natural. É tudo.
- 24:24Tudo poderia ter sido construído ali, não é?
- 24:27Nesse mesmo, nessa mesma fazenda, não é com a madeira,
- 24:31essencialmente e depois alguma peça para fazer as cordas,
- 24:34então. Isso é que eu.
- 24:37Eu me estendi um pouco, mas assim é uma representação sonora
- 24:43e organizacional, não é do arranjo.
- 24:46Acho que impecável é. Dessa música e todos os seus
- 24:52significados, porque insisto, é uma música repleta de
- 24:56significados à essa música, pode ser feita de piano e voz.
- 24:59Claro que pode. Uma grande canção é, você
- 25:02consegue é fazer de muitas maneiras, uma grande história
- 25:07pode ser contada de muitas maneiras, né?
- 25:09É são são aqueles formatos que serão que vem do teatro grego
- 25:14muitas coisas, né? As formas, mas quando acerta
- 25:17quando hacia consonância. Entre o que a música está
- 25:21dizendo, que a melodia está está propondo e a letra está vestindo
- 25:24aquela a prosódia perfeita e tal e entra essa arregimentação.
- 25:29Eu sinto o aroma da Terra. Sim, eu sinto ouvindo esses
- 25:33instrumentos, sabe? E eu destaco os espaços.
- 25:36Para o ar passar, fica muito poroso, não é como como a pele
- 25:41humana, como os veios de da madeira, como?
- 25:45A superfície das águas do riacho não é.
- 25:48É tudo muito natural, não é? Elementar, fundamental.
- 25:52Bom demais, meu amigo, acho que da minha parte é que é isso.
- 25:56Se tiver algo que você queira acrescentar que você pensou em
- 25:59falar que a gente não tratou, fica à vontade.
- 26:03Eu falei em determinado momento que essa música não é tão
- 26:06conhecida, não é? Quanto ela poderia ser e eu não
- 26:11disse que deveria ser? Porque também acredito nessa
- 26:15delicadeza das pessoas poderem é em algum momento descobrirem
- 26:20essa música e perceberem que nem tudo que é legal está no
- 26:25primeiro plano. Nem tudo que é legal está ali
- 26:28para assimilação instantânea e de gestão instantânea e.
- 26:32É, às vezes. É, é legal você ir atrás de algo
- 26:37e descobrir ao longo de uma caminhada aí para fechar, eu vou
- 26:41parafrasear o professor Washington marsales, grande
- 26:44músico e um dos uma das figuras que ajudou a recolocar o jazz em
- 26:50pauta no final dos do do do século 20 especificamente, né?
- 26:54O meados dos anos 80 que ele disse que é uma grande obra de
- 26:58arte, não vai até você. Shakespeare não vai ter você não
- 27:02é o Machado de Assis não vai até você.
- 27:06E por aí vai, né? Cada um escolhe a Tarsila do
- 27:08Amaral, não vai até você. Você é que tem que ir até uma
- 27:13obra de arte. Se você quiser ir atrás dela e
- 27:15colher os frutos dessa busca e dessa descoberta, acho que o
- 27:19morro velho é uma dessas jóias. Que sempre?
- 27:24Que forem ouvidas, é. Vão entrar, de certa forma, é no
- 27:29coração das pessoas, na cabeça. Ela me parece uma síntese de
- 27:32aptidões contraditórias, porque ela é muito natural, ela é muito
- 27:37intuitiva, ela é muito. É emotiva e simultaneamente ela
- 27:44é complexa. Ela é extremamente inteligente,
- 27:48ela é. Tem uma forma matematicamente
- 27:51muito bem construída, então ela reúne.
- 27:56A partir 2 que que em princípio? É, a gente pode julgar como
- 28:01contraditórias e muitas vezes são a músicas que são
- 28:05extremamente complexas e são realmente de difícil seu
- 28:08assimilação, compreensão, se ouvir e ouvir.
- 28:12E tem músicas muito simples, né? Que você escuta e fala, nossa, é
- 28:15o que eu chamo de pop, né? Algo de assimilação instantânea
- 28:19quando junto os 2 eu adoro, né? Por isso que eu gosto do Milton,
- 28:23do Stevie Wonder, né, do Pixinguinha, porque você ouve
- 28:26você a subir algo intuitivo, simples, mas quando você para
- 28:29para analisar, você fala, meu Deus do céu.
- 28:33Como é que fizeram isso um dia, não é?
- 28:35É isso. Milton Nascimento é uma força da
- 28:36natureza. Aí você ouviu A Entrevista
- 28:42completa com o João Marcelo bôscoli nos bastidores da
- 28:45gravação para o podcast do instituto, Claro, eu convido
- 28:49você a acompanhar. Já são mais de 10 anos de
- 28:52produções e se você for em instituto Claro, o podcast
- 28:56Milton Nascimento procura aí no Google, no finalzinho da matéria
- 29:01tem links para outras músicas que tiveram uma análise como
- 29:06essa que você ouviu. É ao longo dessa entrevista com
- 29:09o João Marcelo bôscoli. Então tem lá música do
- 29:12Gonzaguinha, do Belchior, do Gonzagão asa branca, muita coisa
- 29:17para você curtir a MPB e também a as mensagens que estão nessas
- 29:24músicas, retratando a sociedade Brasileira.
- 29:29Por hoje, é isso. Eu volto com mais peças raras a
- 29:33qualquer momento por aqui. Paulo, assim, sem tristeza.
- 29:41Falo por acreditar que é cobrando o.
- 29:49Porque nós iremos crescer, crescer.
- 29:57Outros vêm. Traz manhã às plenas de sol e de
- 30:06luz luz.