Latest / Chá de coragem, com Elisama Santos. / Ep. 57 - O QUE SUA RAIVA ESCONDE? Chá de Coragem com Elisama Santos
Transcript
- 0:00A gente até sabe que não dá para fugir das emoções, mas e quando
- 0:06ficar com elas dói demais? O que que a gente faz com as
- 0:10memórias e as lembranças que a gente não queria ter?
- 0:14Aceita um chá de coragem? Eles amam.
- 0:29Queria muito um pitaco seu. Acabei de ouvir seu episódio em
- 0:33que você fala sobre as emoções e pergunta porque a gente não
- 0:35senta, toma um chá e conversa sobre elas.
- 0:39Aquilo mexeu muito comigo. Como mulher preta, eu cresci
- 0:44sendo ensinada a silenciar, anão incomodar, a engolir o que eu
- 0:47sentia no processo terapêutico. Eu tenho aprendido a falar mais,
- 0:51mas ainda é difícil até reconhecer as coisas em mim.
- 0:54Em junho, finalizei 2 relacionamentos que eu amava
- 0:58muito. Um foi o meu trabalho, que eu
- 1:00realmente gostava, e o outro foi com a minha ex.
- 1:04Eu precisei encerrar os 2 porque eram lugares que me machucavam
- 1:08profundamente. Tem uma música do Arlindo que
- 1:11diz, eu te amei com toda a força do amor.
- 1:14Fui muito além do meu querer. Eu sinto exatamente isso.
- 1:18O relacionamento com a minha ex foi muito difícil, mesmo depois
- 1:22do término. Ainda me vem cenas de momentos
- 1:24em que fui violentada emocionalmente e quando essas
- 1:27memórias voltam, eu sinto muita raiva.
- 1:30É como se eu travasse. Eu não consigo elaborar, eu só
- 1:32sinto vontade de gritar, talvez porque lá atrás eu não consegui
- 1:35falar nada. Foram situações muito pesadas
- 1:39que ficaram presas em mim. Eu já chorei, já escrevi, já me
- 1:45permiti sentir, mas ainda assim, essas lembranças, elas ficam
- 1:49aqui dentro, como se me assombrassem meu corpo.
- 1:53E meu dia, o que eu faço com isso?
- 1:56E não pitaco um olhar seu. Eu realmente não aguento mais
- 2:01conviver com essas lembranças que insistem em voltar.
- 2:07AI o que que a gente faz com as lembranças, né?
- 2:11Nós estamos em dezembro e ela me disse que terminou o
- 2:16relacionamento em junho. São 6 meses, gata.
- 2:24As lembranças não são meio assim, eu te entendo
- 2:30profundamente quando você fala eu já chorei, eu já senti, eu já
- 2:33escrevi e pergunta, agora chega, né?
- 2:35Porque é a minha sensação. Sabe quantas vezes eu começo a
- 2:39sensação de terapia e aí eu falo com a minha terapia, caramba,
- 2:42mas a gente tá aqui falando desse negócio de novo, gente,
- 2:45pelo amor de Deus, eu tenho que ser mais criativa.
- 2:49Pô, eu tô aqui no mesmo problema, coisa chata.
- 2:52E ela olha para mim e tipo, eles sabem porque você não pode estar
- 2:56aqui repetindo o mesmo problema, sabe porque para mim chega,
- 3:01chega, eu me permito sentir, eu me permito chorar, mas eu não me
- 3:06permito sentir chorar, entendeu? Tipo, chega um momento que eu
- 3:10falo, tá bom, gata, agora levanta, mas já chorou demais é
- 3:13hora de levantar, sacou? De a poeira da volta por cima,
- 3:16chega, chega de drama, levanta, aí chega, levanta.
- 3:21E eu estou aprendendo que o meu cheiro levanta, não cura as
- 3:26minhas emoções, não cuida das minhas emoções.
- 3:30Que todas as vezes que eu engoli o choro, que eu engoli a
- 3:35tristeza, que eu engoli a angústia, elas ficaram comigo de
- 3:41alguma forma. É que a gente, a maioria de nós,
- 3:45né? Que aprendeu a parar de chorar,
- 3:47soluçando engolindo choro. Não sabe o que é parar de chorar
- 3:53fazendo um de Alívio? Sabe quando você sente que você
- 4:01chorou, chorou assim, o choro? Ele não é um riacho, ele não é
- 4:09uma fonte infinita, ele é um balde.
- 4:11Às vezes é um balde grande, mas se você chorar, ele vai, não vai
- 4:16ser para sempre, é que. A sensação de que vai ser para
- 4:20sempre é que essa dor vai engolir a gente.
- 4:23E tem algumas coisas que eu quero te falar, eu quero trazer
- 4:25para você. Você me disse que você é uma
- 4:27mulher negra que aprendeu a ser forte, a ser durona e mais uma
- 4:34vez estamos juntas, parceira, e vou te trazer um conceito
- 4:37chamado vigilância emocional. Esse é um conceito que muitas
- 4:42minorias vivem, mas principalmente a negritude.
- 4:47Por quê? Porque a gente tem uma
- 4:51vigilância maior em como a gente deveria estar se comportando,
- 4:54então assim, Ah, eu não posso demonstrar raiva se não vão
- 4:57achar que eu sou raivosa e todo mundo acha que preta é raivoso e
- 4:59pode ficar com medo de mim. Eu não quero que fique com medo
- 5:01de mim. A gente cresceu com nossos pais
- 5:03falando, ó, olha como você vai falar, olha como você vai andar,
- 5:05olha como você vai agir. A preocupação em torno do
- 5:08comportamento da pessoa negra, ela sempre é mais intensa, ela é
- 5:12sempre mais tensa. A gente tem uma vigilância
- 5:16maior. Do que acontece fora e dentro de
- 5:19nós. Então assim, eu não posso sentir
- 5:22desse jeito, eu não posso sentir isso, eu não posso agir assim.
- 5:25Eu tenho que fingir que isso não me incomodou?
- 5:26Eu tenho que fingir que essa fala dele não foi racista porque
- 5:28ele é meu chefe. Se não vou poder perder o
- 5:30emprego, eu tenho que fingir. E aí você fica o tempo inteiro
- 5:33com essa desconexão com as suas emoções, porque você fica
- 5:35hipervigilante. Você tem que estar aqui atento e
- 5:39atento o tempo inteiro. E você me diz, elizama, eu não
- 5:42sei lidar com as minhas emoções, pois é, não sabe porque o que
- 5:46você sabe lidar com as suas emoções é a soterrar e é
- 5:50esconder, é olhar Pra Ela e falar, isso aqui você não pode
- 5:52aparecer, que você pode me prejudicar, isso a gente fica
- 5:56craque e aí pode ser que você esteja ouvindo e falando na
- 5:58lizama, eu não sou uma pessoa negra, mas eu também faço isso
- 6:00sim. Gente, esconder as emoções é é
- 6:03algo que todos nós aprendemos a fazer.
- 6:05O que eu estou trazendo, o conceito de vigilância emocional
- 6:08é que quem estuda raça. Traz ele com mais força nas
- 6:11pessoas negras, entendeu? E aí você me descreve essa
- 6:15dificuldade de sentir, de nomear o sentimento de encarar o
- 6:19sentimento de acolher, o sentimento de falar sobre o
- 6:23sentir. E aí, em regra, também.
- 6:25Nas nossas famílias a gente não tem esse espaço.
- 6:29A gente tem pais e mães que cresceram em realidades muito
- 6:34duras na maior parte das vezes. E que acham que a solução pra
- 6:40que a gente consiga lidar com a vida é endurecer.
- 6:42A gente sabe então assim, quantas vezes eu escutei, não
- 6:46chora que isso é coisa que, que não tem um trouxa de roupa pra
- 6:49lavar? Quem não tem um terreno para
- 6:52capinar sofreu depressão, minha filha.
- 6:55Depressão, isso é coisa de rico, isso é coisa de quem pode, você
- 6:57não pode, a gente não pode ter essas coisas não, porque isso
- 7:00assim tava tudo tão focado numa sobrevivência que viver.
- 7:06Com plenitude dos próprios sentimentos.
- 7:09Era muito, nunca foi foco. E aí essa hipervigilância, ela
- 7:14interfere na forma que a gente também se apega ao outro.
- 7:18Esse apego de me sentir segura com alguém, de falar o que eu
- 7:21sinto, de me entregar de coração aberto, sabe?
- 7:25A gente não aprende a ter esse apego porque não é seguro se
- 7:29abrir pro outro. Porque o outro pode usar toda e
- 7:31qualquer informação contra você, porque o outro pode mudar de 1
- 7:34hora para outra, porque podem decidir que você não deveria
- 7:36estar onde você está. A gente está sempre na cor da
- 7:38bamba e esse coração acelerado faz com que a gente se apegue
- 7:42com mais insegurança. Os adultos que cuidaram de nós,
- 7:47em regra, querem nos endurecer, porque a vida vai ser dura com a
- 7:49gente. E aí com a ideia de deixar a
- 7:51gente preparado para receber a dureza da vida, endurece o nosso
- 7:56casco, né? Eles batem na gente para a gente
- 7:58já estar acessível. Hoje já está resistente a uma
- 8:02dor na rua E aí a gente vai aprendendo a soterrar as emoções
- 8:07e você não paralisa uma relação. Foi tão difícil, foi tão cheia
- 8:12de dor. EE foi tanta mágoa e fica tudo
- 8:17aqui e eu não consigo nem elaborar porque eu só sinto
- 8:20raiva. Eu provavelmente já falei aqui
- 8:24em algum outro episódio, mas eu vou trazer de novo a raiva.
- 8:29Ela é como uma capa, tá a raiva. Ela está sempre aqui guardando
- 8:36algum sentimento em baixo. Ela está sempre escondendo
- 8:40alguém aqui. Ela está sempre nos protegendo
- 8:42de alguém. Ela é uma armadura para fugir da
- 8:45vulnerabilidade, de reconhecer a tristeza, a frustração, a
- 8:51decepção. A gente sente raiva.
- 8:57E a gente aprende que precisa dessa raiva para conseguir dar
- 9:00conta da vida, sabe? Assim você me fala, Ah, eu não
- 9:04sou uma mulher negra. Como mulher negra, a gente não
- 9:05acha que vai chegar alguém para salvar a gente.
- 9:08Eu não aprendi que que as pessoas iam me salvar, as
- 9:11pessoas acham que eu dou conta, as pessoas acham que eu aguento,
- 9:15tem 11, imaginação, que é coletiva, é social.
- 9:22E aí eu tenho que ter raiva, porque eu acho que se eu não
- 9:25tiver muita raiva, eu. Vou ser atropelada.
- 9:27Então veja só, eu já tenho uma tendência, raiva de
- 9:31personalidade. E aí eu cresci em uma condição
- 9:35social que me fala, meu amor, luta, devolve a porrada, sabe?
- 9:42Se prepara, porque da onde vem o tiro, de onde é que vem a
- 9:47próxima agressão, a próxima violência, a próxima coisa que
- 9:50vai te machucar. E aí eu aprendi a ninguém vai me
- 9:53defender, não tem príncipe, um cavalo branco pra gente preta.
- 9:57A mulher preta tem você se vira gata, você é o seu príncipe e
- 10:02você tem que ser tudo para você mesma.
- 10:06E aí, essa aí foi a vigilância emocional e essa certeza a gente
- 10:09tem que estar sempre preparada, faz com que a gente fique
- 10:11estacionado aí nessa raiva, nessa irritabilidade, que também
- 10:15não pode ser vivido em sua plenitude, porque nem a raiva a
- 10:17gente tem direito de viver toda porque você sorrindo, você
- 10:20agressiva, imagina se você fez, faz cara de brava, e aí?
- 10:26Você não consegue se conectar com o que está além.
- 10:30Eu acho que eu já disse aqui que um dos maiores presentes, quando
- 10:33eu comecei a estudar não violência e a psicanálise foi
- 10:38entender que o que eu sentia me comunicava algo, sabe, todo
- 10:43mundo me dizia que a minha raiva era errada.
- 10:47EE eu achava que era errado mesmo, que eu tinha que ser mais
- 10:49calma, mais fofinha. E eu não era uma pessoa fofinha.
- 10:52Eu pensei, como é que eu vou ficar fofinha?
- 10:55E foi a psicanálise e foi anão violência que me trouxeram um
- 10:59espera aí, essa raiva, ela tem uma razão de ser, vamos escutar
- 11:03que razão é essa, essa raiva? Ela está te contando alguma
- 11:07coisa, vamos escutar o que ela está te contando, essa raiva,
- 11:11ela está aqui para dizer algo sobre você, vamos escutar o que
- 11:17ela está aqui para te dizer para você sobre você.
- 11:21E foi muito transformador, sabe? Foi muito potente.
- 11:25É ter curiosidade sobre mim, tá? Eu tô com muita raiva, mas eu tô
- 11:32com muita raiva porque e aí fecho o olho e respirar e
- 11:35pensar, nossa, porque eu tô muito frustrada, porque eu tô
- 11:37com muito medo, porque eu tô com medo de descobrir tal coisa,
- 11:42porque eu tô com medo de acharem que eu tô.
- 11:44Não tô pronta pra isso ou porque eu tô, enfim, muitos motivos
- 11:49possíveis que você só vai alcançar se você se permitir.
- 11:55E além da raiva, não é que você não vai sentir a raiva, é que
- 12:01você vai conseguir olhar pra raiva e atravessar essa raiva e
- 12:09chegar no lugar que ela estava te protegendo.
- 12:12Que que ela está cuidando dessa raiva?
- 12:15Ela é o cão de guarda. De que?
- 12:17Que preciosidade é essa que você precisou botar essa raiva tudo
- 12:23no lugar. E aí você falalizou o Natal.
- 12:26Talvez seja os gritos que eu não dei.
- 12:28Talvez você esteja tão triste eu perceber que você não teve tanta
- 12:32autonomia como você gostaria. Talvez você esteja frustrada
- 12:37porque você finalmente confiou em alguém e a decepção está
- 12:42enorme porque essa pessoa é tão difícil para você se vincular.
- 12:46É tão difícil você entregar. E você se entregou, caramba, e
- 12:49essa pessoa não cuidou desse Tesouro?
- 12:53Quer conviver com a tua emoção, com essa, com essa tão preciosa
- 12:59que você tinha guardado aqui que você não nunca mostrou para
- 13:01ninguém? Você mostrou para ela que raiva,
- 13:05que raiva, porque? Que triste?
- 13:10A raiva é porque eu estou triste.
- 13:13A raiva é porque eu estou decepcionada.
- 13:15A raiva porque eu estou frustrada porque, caramba, foi
- 13:18tão difícil para mim entregar isso para essa pessoa e ela não
- 13:21cuidou. E agora eu eu sofri muito nessa
- 13:26história. Vamos dar nome.
- 13:29Essa foi uma relação violenta. Essa foi uma relação que te
- 13:33feriu. E essa é uma relação que tá te
- 13:38dando muita raiva. Por que?
- 13:43O que é que a raiva tá te contando que não tinha nessa
- 13:45relação e que você agora sabe que precisa ter nas outras
- 13:49relações? O que é que não estava protegido
- 13:54nessa relação e que agora você quer deixar claro que nas
- 13:58próximas relações isso precisa estar presente, cuidado,
- 14:01atenção, bem cuidado. O que é você precisa elaborar?
- 14:11E tem um tempo gata, que normalmente não é de 6 meses e
- 14:18você falou não aguento mais com essas memórias.
- 14:20Fiquem surgindo na minha cabeça o luto.
- 14:25E aí quando a gente termina um relacionamento, a gente vive um
- 14:27luto. Ele, ele tem ondas, sabe?
- 14:32A gente fala das fases do luto como elas fossem, se elas fossem
- 14:35separadinhas, mas na realidade elas não são, são ondas.
- 14:41E a raiva, ela faz parte dessas ondas.
- 14:43E tem hora que passou e tem hora que a coisa vem de novo com
- 14:46força e você fala, meu Deus, eu achei que eu já tinha esquecido.
- 14:49Eu achei que isso não me abalava mais, mas é o tempo junto com a
- 14:54elaboração, o tempo sozinho, amor, o tempo sozinho, ele não
- 14:57cura nada, o tempo sozinho não é capaz de cuidar de nada, o tempo
- 15:01sozinho não é capaz de nutrir nada, tá?
- 15:05Não adianta você jogar a sementinha que achar que o tempo
- 15:07sozinho vai dar conta. Precisa da do cuidado, precisa
- 15:10da chuva, precisa de alguma outra coisa, não é só o tempo,
- 15:14uma ferida para Sarah, ela precisa de tempo e de cuidado.
- 15:19Mas aí você me disse, elizama, eu estou lendo, eu estou
- 15:21estudando, eu já chorei, eu já desci e agora chega, amor, você
- 15:26está cuidando, mas você está dando tempo, entendeu?
- 15:28Porque a esse saraí vem da conjunção cuidado e tempo.
- 15:36O tempo sozinho não cura nada, mas o cuidado sozinho ele não
- 15:39vai acelerar as coisas. Eu queria que acelerasse, né?
- 15:45Bom, ser honesto, eu queria. Eu queria que fosse assim, ó, já
- 15:48fiz minha parte, já entendi, entendeu por que que eu faço
- 15:52isso? Já nomeei essa dor, pronto,
- 15:56agora vai se embora, já te vi, vai se embora, acabou, chega eu
- 15:59queria que fosse, mas não é assim.
- 16:05E tem dor que ela demora muito para sarar e que ela não sarra
- 16:13100%, sabe? Tendo o que as secretas viram, o
- 16:18caloide. Assim, um relevinho ali que ela
- 16:21não desaparece faz parte da sua história, entendeu?
- 16:29Faz parte de quem você é, meu marido.
- 16:33Ele teve um machucado nas costas que virou uma caloide, e ele
- 16:38estava fazendo um tratamento dermatologista e ela tentou
- 16:42tirar essa caloide. Que o procedimento de tirar uma
- 16:46cloud virou cloud, o procedimento de tirar a cloud
- 16:50virou cloud e é isso assim, pois é, tem uma marca aí, uma cloud
- 16:55menorzinha, é uma cloud menorzinha, mas não vai ficar
- 16:59sem nada, sabe? Eu tenho várias marquinhas aqui,
- 17:02ó, a maioria dessas no braço sou eu tirando coisas do forno, eu
- 17:08boto a coisa no forno, aí encosta o reflexo, assim eu bato
- 17:10Na Na parte de cima do forno eu estou cheio de queimadinha do
- 17:13forno, ó. Aqui, aqui, aqui, aqui.
- 17:15E é isso sinal que eu ainda não aprendi, né?
- 17:19O queimando por Cristina mais de cicatriz, esperar aprender e
- 17:23parar de ter esse reflexo, de queimar assim, desse jeito, mas
- 17:27elas não vão desaparecer, sabe? Faz parte da minha história,
- 17:33cada cicatriz faz parte da minha história.
- 17:35Aqui foi um cisto que eu tive na mão, o cisto voltou, depois ele
- 17:39desapareceu, eu tinha 14 anos, aí eu fui para praia com os
- 17:43pontos. E a cicatrização ficou essa caca
- 17:46que você tá, que tá aqui e faz parte da minha história.
- 17:51E por mais que eu queira muito tirar as marcas da minha
- 17:53história, da minha vida, algumas eu até consigo com muito esforço
- 17:59e com muita grana, mas outras não.
- 18:03Outras vão ficar essa marca. Ela é muito feia por um tempo.
- 18:09Agora ela é feinha, mas já não me incomoda.
- 18:11Eu já olho Pra Ela pensando OK? É, mas ou as minhas marcas da
- 18:16vida. Vai dar tempo, sabe?
- 18:23Respeita o tempo dessa dor virar uma dor.
- 18:30Essa ferida vira uma ferida menos, menos é latejante.
- 18:38Ela vai virar, eu te prometo. E aí depois ela vai virar uma
- 18:42ferida cicatrizada e depois ela vai virar uma cicatriz.
- 18:48Ela não vai desaparecer. Mas aí essa cicatriz ela não
- 18:55deixa lugar insensível, não. Um aperto de mão e o carinho
- 19:01aqui eu ainda sinto e ainda pode ser bom, sabe?
- 19:08A cicatriz ela não vai te impedir de amar de novo, de ser
- 19:12amada de novo. A cicatriz não vai, não precisa
- 19:16te impedir de confiar. A dor, sim, quando ela está
- 19:19latejando ainda dificulta, mas dá Tempo Ao Tempo.
- 19:25E você me falando, o que eu faço com essa memória?
- 19:28Essas memórias que vem AI? Você vai construir outras
- 19:31memórias nesse momento? Elas são tão recentes.
- 19:38Que elas são o último álbum principal, sabe?
- 19:42Mas aí você vai ver outras coisas e aí você pensa na tela
- 19:48do seu celular. Quando você compra um celular e
- 19:52você acabou de tirar umas fotos, a foto fica até maior, né?
- 19:56Na grade. Mas aí quando você tira um Monte
- 19:57de foto, aquela foto vai diminuindo, porque vai surgindo
- 20:00várias outras fotos e aí a grade vai ficando maior e faz espaço.
- 20:03EE, aquela vira uma foto. Dentro de várias outras fotos,
- 20:09essa memória hoje ela está com foco na tua vida, porque ela
- 20:16acabou de de recebeu muita atenção, porque ela ainda está
- 20:21doendo, porque ainda tem uma ferida.
- 20:24Aí parece que vai construir outras memórias.
- 20:28E com as outras memórias, essa memória, ela vai encontrando
- 20:33outro lugar para ficar. Nesse mosaico enorme da tua
- 20:36vida, ela não precisa ficar no centro, ela nem vai ficar no
- 20:40centro. Você vai ver 6 meses, vai dar
- 20:45mais tempo, acrescenta. Aí o que você pode fazer de
- 20:49prazer na tua rotina de memórias gostosas na tua rotina, na tua
- 20:54vida, com pessoas que você ama? Vai tirando novas fotos que aí
- 20:59essa ela vai sair do centro da Galeria, tá bom?
- 21:04E é isso, meu amor. Se você gostou do episódio,
- 21:09deixa aí seu comentário, seu coraçãozinho, sua estrelinha,
- 21:11seja lá o que for. 11 sorrisinho pra eu saber, olha só, ela leu,
- 21:17a Ava tá aparecendo, gente, a Ava tá, você não tem noção da
- 21:20cena, ela tá com a perna lá em cima, Lava minha gata tomando
- 21:23banho aqui, assustadora. Que bom que não tá aparecendo,
- 21:26que vocês estariam vendo coisas que eu não queria que vocês
- 21:28vissem, mas eu IA mexer nela. É isso, né gente?
- 21:32Enfim, comenta aí, compartilha. E se você quer o meu pitaco na
- 21:37sua história, manda o seu e-mail.
- 21:40Quem sabe eu consigo te responder.
- 21:43Está bom, um beijo e até o próximo episódio.