Latest / Ultravioleta Podcast / Ep.6 - Educação em des/construção
Transcript
- 0:05Ultravioleta o teu podcast, além do visível, sejam todos muito
- 0:12bem vindos a mais um episódio do ultravioleta.
- 0:14Relembro já agora que para não perderes qualquer episódio pode
- 0:18ativar o sininho nas notificações e dessa forma,
- 0:21também ajudar nos a crescer. Seguindo o podcast no Instagram,
- 0:26também podes seguir nos em ultravioleta.
- 0:28Para onde pode? Onde poderás ir vendo as
- 0:30antevisões dos episódios. E interagir connosco por
- 0:34mensagens. Neste episódio, trago um querido
- 0:38amigo chamado Pedro pais, alguém que já tem uma larga experiência
- 0:46a favor ou em prol da comunidade.
- 0:49Há quem me diga que é ativismo. bem-vindo, Pedro.
- 0:52Como estás? Olá, viva, eu sou o Pedro, tudo
- 0:56bem, Miguel? Estou bem, estou bem.
- 1:01Estás bem? O Pedro estava me a confessar há
- 1:03pouco que estava bastante nervoso e não há necessidade
- 1:06nenhuma para isso. Ó Pedro, tu, porque é que tu
- 1:10envolveste? Porque é que resolveste dar a
- 1:12cara e nos anos em que anos já agora começo, vamos começar por
- 1:18aqui, quando é que começaste com com a dar a cara e a aparecer em
- 1:22público? Porque a tua família não era
- 1:25propriamente uma família que apreciasse.
- 1:30Essa tua exposição? Verdade, e acho que também nunca
- 1:34foi. A realidade é essa, mas mas eu,
- 1:38a rede iseco e a rede iseco é uma associação.
- 1:41Não sei se toda a gente conhece, mas é uma associação de defesa
- 1:45dos direitos de jovens lésbicas, gays, trans, intersexo e também
- 1:50de apoiantes. A rede iseco começou em 2003,
- 1:54mas eu comecei a ingressar nas reuniões da da rede iseco em
- 1:582007. Ora, eu tenho 30 e poucos anos,
- 2:03OK, tenho 39, mas ainda estou, ainda estou em fase de
- 2:07comunicação. Então, nessa altura eu era
- 2:11bastante jovem e comecei em 2007 a ir às reuniões.
- 2:16E foi. E a redes é que foi mesmo muito
- 2:18importante em toda a minha vida, até para me estruturar e também
- 2:23para eu começar a ter esta consciência mais cívica de de de
- 2:28participar. Proativamente a favor de da
- 2:31comunidade e da sociedade com que em que nós nós estamos.
- 2:35E foi a partir de 2011 que comecei depois 11, projeto da
- 2:39redes eco de ir às escolas falar sobre as questões de orientação
- 2:43sexual, identidade de género e expressão de género.
- 2:47Comecei a ter essa formação em 2011 e foi desde 2011 até 2023,
- 2:53basicamente. Já lá vamos, ou seja, sentiste
- 2:56necessidade de encontrar uma associação.
- 2:59Na qual te pudesse sentir integrado e através da qual
- 3:03pudesse ajudar a comunidade, é isso?
- 3:06No início, foi até por até por um próprio ato egoísta.
- 3:10Não é de de tentar. Eu próprio também ver e dar
- 3:13resposta a algumas dúvidas e anseios que eu tinha Na Na
- 3:16altura. E depois, obviamente, formei
- 3:20grandes amizades ali na rede is eco e as coisas foram se
- 3:23arrastando para depois para um, para um processo mais ativo de
- 3:27tentar melhorar a sociedade em que em que estamos e participar,
- 3:32então, nessas nesses eventos, tentar melhorar as condições
- 3:37para todos os jovens lésbicas, gays e bissexuais e trans.
- 3:41Deste também é que há em várias, várias marchas LGBT.
- 3:46Também tiveram que foste associado da ilga Portugal,
- 3:48certo? Sim, sim, é verdade.
- 3:51Também fui quando eu me mudei para Lisboa, a altura que
- 3:55coincidiu com pronto, com a resposta mais negativa da minha
- 3:58família em relação à minha orientação sexual, que eu tive
- 4:03que sair de casa para Lisboa. E foi lá que eu também procurei
- 4:06depois as associações de de intervenção nesta área para para
- 4:11também estar mais próximo e. Receber esse esses inputs e
- 4:16essas ajudas na em relação a mim.
- 4:19Claro. E pronto, e comecei nesse
- 4:22ativismo. Esse projeto que tu referias na
- 4:25rede ekzeko já agora rede ekzeko ela, ela aceita voluntários, a
- 4:31participação de voluntários de uma faixa etária muito
- 4:35específica, certo? Sim, é uma associação que
- 4:39promove não discriminação dos 16 aos 30 anos de idade.
- 4:44Então foca se mais Na Na, na Juventude, não é?
- 4:48Então os participantes também serão, obviamente dentro dessa
- 4:52da da dessa faixa etária dos 16 aos 30.
- 4:57Portanto, é pena, porque depois todo o esforço de todo o
- 5:00trabalho que se desenvolve durante essa fase, depois chega
- 5:03ali o prazo da validade não é? Desde de chegar aos 30 anos de
- 5:06idade, EE fica se OKE, agora já não posso participar, não é?
- 5:12E. A equipa iogurte chegou a tingir
- 5:14o prazo de validade. Sim, mas, mas pronto,
- 5:18encontramos outras coisas. Claro.
- 5:20Mas então, focando nos naquela, naquela como é que tu te
- 5:24chamaste? Projeto educação é isso de rede
- 5:26educação, sim, projeto educação. Quando tu ias a várias aulas de
- 5:32várias de várias escolas secundárias do de Portugal falar
- 5:37e já lá vamos pronto, isto dá para falar de muitas coisas.
- 5:41Eu e eu começo por perguntar, se calhar fazer aqui 11 pequena
- 5:44alfinetada, uma pequena provocação.
- 5:47Isto é, aquilo que se ouve falar.
- 5:52Como aulas estão integradas naquilo das aulas de cidadania
- 5:57ou outra coisa qualquer. É assim, as anascolas há muito
- 6:02pouco sítio, há muito pouco contexto para se começar a falar
- 6:06de aspectos e a falar destas questões de identidade e
- 6:10diversidade. E o único espaço que era
- 6:13integrado a toda esta participação é obviamente nas
- 6:17nas aulas de cidadania. As aulas de cidadania tem tem só
- 6:20uma disciplina própria e com um programa próprio.
- 6:24E muitas das vezes estas sessões vinham por via da obviamente do
- 6:28no contexto da aula da disciplina de cidadania.
- 6:31OK, só para nos situarmos aqui isso em que anos, Pedro?
- 6:34Entre que anos é que tu que tu participaste nessas aulas?
- 6:38Participar desde 2011 até 2023. OK, fui imensas sessões.
- 6:45É curioso que eu até antes da desta, desta nossa conversa, eu
- 6:48até fui pesquisar quantos briefings, porque nós recebemos
- 6:52um briefing antes de cada sessão.
- 6:54Quantos briefings é que eu tinha recebido para saber quantos
- 6:56convites é que eu fui e contei 79 convites.
- 7:00Ora, e são convites para darem cada convite, provavelmente. 5 a
- 7:066 aulas de de várias turmas, não é?
- 7:08Porque as turmas se vão, vão dividindo.
- 7:10Por isso já fiz imensas, imensas sessões.
- 7:12Então. Estamos a falar de centenas, não
- 7:14é centenas de, de, de, de, de aulas e, portanto, isto não é
- 7:19nada. Enfim, já, já lá vamos também à
- 7:21parte, como é que isto se processa?
- 7:23Mas isto então não é nada de tu ires sob o chapéu das aulas de
- 7:27cidadania não tem nada a ver com ires lá tentar converter as
- 7:30pessoas em gays. Não, nada a ver.
- 7:34Aliás, isto eu acho que eu acho que isto era importante, que
- 7:37toda a gente soubesse. Não é a associação, a redes eco
- 7:40que se autoconvida para participar nas escolas, as
- 7:43sessões, basicamente, o que, o que, o que acontecia era ou, por
- 7:48exemplo, 11 professor achava que seria necessário porque teria
- 7:52uma situação de alguém numa turma que que gostasse, que que
- 7:57os alunos soubessem como lidar com.
- 8:00Com essa situação, ou de uma jovem lésbica ou de um jovem gay
- 8:04que estivesse na turma e então de de ganhar ferramentas para
- 8:07para poder lidar com essa situação, o que muitas vezes
- 8:10acontecer. O professor próprio propunha AA
- 8:14ida da da associação para se para se criar um espaço para se
- 8:17falar sobre sobre estes temas e assim os alunos terem mais
- 8:21consciência e poderem falar e lidar com essas situações
- 8:25pontuais. Ou então, muitas das vezes
- 8:28também eram grupos de alunos que a nível de projeto, por exemplo,
- 8:31para essa disciplina de cidadania, queriam falar sobre
- 8:35esta temática por alguma razão e convidavam.
- 8:37Então a redes eco e depois a redes eco entravam em contacto
- 8:40com a própria escola para saber se teria ou não a aprovação para
- 8:43poder ir dar estas sessões. Mas todas estas sessões não
- 8:48partiam por parte da redes eco, isto é, não, não nos fazemos de
- 8:50convidados, era próprias escolas que que comunicavam com a.
- 8:55Com a rede e eco EEE propunham então fazer estas sessões
- 9:00precisamente por parte das das escolas e nunca por parte de da
- 9:05rede e eco, e muitas destas sessões em algumas escolas até
- 9:08necessitariam de aprovação do próprio da próprios encarregados
- 9:13de educação da própria associação de pais.
- 9:15Para poderem participar nas escolas.
- 9:17E isto e isto, tudo isto. Obviamente vemos que a
- 9:21iniciativa não era da redes eco EE nem nem ir para as escolas,
- 9:26pois a provocação de nós tornarmos as pessoas gays ou o
- 9:29que eu quer que seja, isso não é assim, não é porque, ao
- 9:34contrário, a teoria de géneros não está do nosso lado, está em
- 9:38quem? Quem me sente que que só existem
- 9:402 papéis de géneros, não é? E que cada papel é que tem as
- 9:44suas regras definidas. E nós íamos lá mostrar ou a
- 9:47tentar explicar o contrário. Cada um é que se apetecer.
- 9:51Sabes que eu, que eu gosto de de vez em quando ir, ir salgando
- 9:55aqui? A nossa conversa com essas
- 9:56pitadas de enfim tiradas para, para, para também é expor um
- 10:01bocado o ridículo de de algumas coisas que se vão ouvindo por
- 10:04aí. Disseste que nalgumas das
- 10:06situações eram os próprios alunos que que faziam o convite.
- 10:10Alguma vez tiveste alguma situação assim?
- 10:12Um pouco? Eu não quero de todo que contes
- 10:16casos específicos, portanto, não é esse.
- 10:18O objetivo disto, portanto, é, é é falar de uma forma geral.
- 10:22De uma maneira geral. Mas alguma vez te alguma vez
- 10:25tiveste algum problema com algum professor ou professora que te
- 10:29tivesse recebido assim a olhar de lado um pouco.
- 10:34Desconfortável muito até. Obviamente, eu acho que sempre
- 10:42que se fala neste nestes temas, há sempre um desconforto de quem
- 10:46de quem nos ouve. E muitos professores, se calhar,
- 10:48estariam lá porque levavam depois das turmas, não é?
- 10:50Eram escolhidas das turmas com as quais se davam estas sessões.
- 10:53E muitos, se calhar, até iam no desconhecimento, não sei ou nem
- 10:56na ignorância. E depois, quando percebiam que a
- 10:59temática era de falar sobre estas questões e dar
- 11:02visibilidade a estas questões e aos porque, porque achavam que
- 11:06não era. Apropriado, tinham às vezes
- 11:09reações, um bocadinho adversas, AETE muitas das vezes, por
- 11:14exemplo, casos olhem, lembro me que tinha passado um ou 2 anos
- 11:17depois da aprovação do casamento e quando se iniciou se
- 11:21exatamente a sessão para falar sobre esta questão dos direitos
- 11:24AZBT. E do que?
- 11:26E o que é que o que é que tinha sido aprovado?
- 11:28E mudanças que nós estávamos a assistir naquela altura.
- 11:30E lembro me de uma de uma professora que pediu às 2 turmas
- 11:34que estavam presentes para saírem todas da sessão.
- 11:36Estávamos a tirar a sessão no anfiteatro da da escola, na zona
- 11:41de Lisboa, e pediu a todos, a todos os alunos para saírem
- 11:44daquela sessão porque não estava para ouvir aquelas coisas.
- 11:46EE os alunos infelizmente, porque foram lá comandados em em
- 11:52carneirada pela pela professora, foram.
- 11:55Foram saíram todos da sessão e foi assim, um momento, um
- 11:57bocadinho, constrangedor, obviamente, e.
- 12:00E quando quando chegas isto estás perante 11 turma ou várias
- 12:04turmas? O que é que?
- 12:05O que é que tu dizes? Tu chegas lá e perguntas assim,
- 12:08quem é que daqui é gay, por exemplo?
- 12:10É isso? Não, obviamente.
- 12:16O que é que se fala, não é? E o objetivo, o objetivo das
- 12:20sessões é nós basicamente termos.
- 12:23E eu fui percebendo até também ao longo das minhas
- 12:25participações, qual é que seria os melhores modelos para ter
- 12:29estas sessões e para se falar sobre estas, sobre estas
- 12:31temáticas. E fui me apercebendo.
- 12:34Eu lembro me que precisamente que no início a coisa era sempre
- 12:37muito formal da minha parte, aquela coisa de estar sentada à
- 12:41frente de uma mesa, de à frente dos alunos, ou de estar em pé,
- 12:43encostado ao quadro. E a expor coisas isso acho que
- 12:47isso não não trazia grandes resultados.
- 12:51O que trazia mais melhores resultados era quando nós
- 12:54tínhamos uma conversa completamente informal,
- 12:57precisamente a educação não formal e de e de não não
- 13:00chegarmos lá e expormos as coisas como se fosse algo
- 13:03expositivo ou como se tivéssemos agarrados a um PowerPoint.
- 13:06Nada disso. O que era muito melhor quando as
- 13:09conversas eram cara a cara entre pares, completamente com os
- 13:14alunos. E que as respostas viessem
- 13:17sempre dos alunos e não não fosse uma coisa muito
- 13:19dispositiva de eu estar ali a apresentar algo ou a mostrar
- 13:22algo ou a falar sobre algo. E muitas das vezes, as sessões
- 13:27eram mesmo utilizavam se dinâmicas, obviamente, para
- 13:31quebrar o gelo e para, claro, para se começar a falar sobre os
- 13:34conceitos e sobre essas coisas todas.
- 13:36Mas as sessões eram levadas pela participação dos próprios alunos
- 13:40e das experiências e das vivências dos alunos.
- 13:43E. E tentar mostrar lhes o outro
- 13:47lado da questão, o outro lado da moeda, fugindo aos binarismos,
- 13:50fugindo a às imposições da sociedade, aos papéis da
- 13:55sociedade e isso tudo, e mostrando que as coisas são
- 13:58sempre muito mais diversas e muito mais variadas do que na
- 14:01realidade. Muito mais coloridas, não é?
- 14:04Sim, exato. E vinho?
- 14:06Estas as sessões eram muito orientadas pela por essas
- 14:10vivências e das partilhas que os alunos iam tendo com na sessão.
- 14:14Ou de professores também. Houve muitas professoras e
- 14:16muitos professores também partilharam partilhavam
- 14:18histórias da sua vida e de experiências e de haver pessoas
- 14:22que conheciam. EE era muito nessa ótica de ter
- 14:26uma conversa ali, EE dar oportunidade para falarem sobre
- 14:31sobre estas coisas. Não teriam noutra altura, não.
- 14:34É claro. Nos programas não existe essa
- 14:36oportunidade. Porque imagino que aquele
- 14:39exemplo que desta professora que pediu para para toda a gente
- 14:41sair do do anfiteatro. Espero eu fosse ou tenha sido
- 14:46111. Imensa minoria não é.
- 14:48Acredito que a maioria dos professores fosse colaborativo
- 14:51EE, proativo na e ajudasse à realização dessas mesmas aulas.
- 14:56Não é? Sim, sim, sim.
- 14:58Obviamente, a maioria dos professores eram bastante
- 15:03bastante cooperativos com as sessões.
- 15:06Estamos a falar do ensino secundário, portanto, ou.
- 15:10Ou não estamos a falar de não é só ensino secundário, é desde o
- 15:13ensino básico, desde 1415 anos até até até à universidades.
- 15:20Também já fiz universidades EE assim, por isso é bastante
- 15:25variado, mas eu acho que até poderia se adaptar até.
- 15:28Pessoas do ensino básico, houve obviamente em muito menor
- 15:32número, mas houve processões dadas pela pela redes eco.
- 15:35Eu não não tive essa sorte, mas de de ensino básico, de falar
- 15:39precisamente desta coisa de o que é que são as profissões com
- 15:42género? O que é que o género interfere
- 15:44na nos papéis de cada um. E isso tudo acho que era
- 15:49bastante importante. Porque tu há pouco estavas a
- 15:51falar da da da interação e do. Feedback, vá lá do do dos alunos
- 15:56e imagino que até o próprio quebrar do gelo as estratégias
- 16:01EE toda esse, essa interação com os alunos varia bastante
- 16:04consoante as faixas etárias. Não é porque uma coisa é que tu
- 16:06estás a falar com um aluno de 13 ou 14 anos, outra coisa estava a
- 16:09falar com um aluno de 17 ou 18 anos, não é EE com com a turma
- 16:14como um todo. Obviamente as temáticas iriam
- 16:17iam variando um pouco com com as idades que que eram e a maneira
- 16:21como se falava, obviamente de era variava muito com com o
- 16:26público alvo. Não é que que estava lá a
- 16:28assistir, mas há havia aqui alguns temas em que nós
- 16:34percebíamos que eram bastante transversais em relação a todas
- 16:39às bases do que é que, por exemplo, falava se muito sobre a
- 16:42discriminação, não é? Aliás, eu até gostava de começar
- 16:47e era uma das atividades que eu gostava sempre de começar as
- 16:49sessões. Era de identificar que palavras
- 16:52é que as pessoas costumavam a utilizar ou ouvir para se
- 16:57referir, por exemplo, a pessoas lésbicas ou a pessoas gays ou ou
- 17:01a pessoas bissexuais ou a pessoas trans.
- 17:04E fazia se levantamento com toda a turma.
- 17:06Logo no início, cada um dizia as suas palavras desde os nomes de
- 17:10que nós conhecemos para para referirmos a pessoas gays como?
- 17:14Panoeiro, pandula, rabeta, bafa, bafa, palhinhas tudo, tudo e
- 17:19mais alguma coisa. Ouvíamos essas palavras, essas
- 17:21expressões, e depois para fazer o levantamento, por exemplo,
- 17:24para palavras que se utilizavam para lésbica, desde fufa uma
- 17:28trafona tudo isso para para bi e para trans, e depois era.
- 17:33Fazíamos aí um processo muito interessante e muito engraçado
- 17:37de desconstrução. Mas aquilo era tudo.
- 17:39Muito era. As palavras vinham deles, não
- 17:41eram? De mim que que?
- 17:42Diziam essa palavra e era para perceber um bocadinho até muitas
- 17:45das vezes. Qual é que era o contexto
- 17:46daquela turma? EE qual é que era a reação
- 17:49daquela turma em relação a estes temas e não sei quê.
- 17:51E isso tudo. Mas depois disso, fazia se um
- 17:54processo de desconstrução e perceber o que é que aquelas
- 17:57palavras queriam dizer no fundo e se haveria palavras positivas
- 18:01ou negativas. Vivíamos que éramos todas as
- 18:03palavras que utilizamos. Para falar destas pessoas, são
- 18:07todas, sem exceção. São todas palavras negativas,
- 18:12ofensivas, insultos. E então só essa constatação
- 18:15dessa realidade fazia com que todo o ambiente da turma fosse
- 18:20mais consciente e percebesse, OK, realmente aqui estamos.
- 18:25Parece que estamos todos assim, meio a brincar, mas estamos a
- 18:28falar de coisas importantes. Estamos a falar realmente de.
- 18:32Que são estas as pessoas que nós utilizamos para falar de
- 18:34qualquer pessoa que seja LGBT? Não é EE qualquer, e as únicas
- 18:40palavras que nós temos são todas as palavras negativas.
- 18:43Então não há aqui nada de vitimização, não é?
- 18:46Há aqui uma constatação da realidade.
- 18:49Realmente, se a gente quando fala sobre uma pessoa LCBT,
- 18:52usamos palavras para além das palavras neutras, não é que são
- 18:57normais, são palavras que devem ser utilizadas.
- 18:59Todas as outras palavras são negativas e são insultos.
- 19:02Então, a partir desse momento, eu já sabia que já tinha ali a
- 19:05turma conquistada para para ter a abertura para falar sobre
- 19:08isto, porque já dava 11, novo olhar e uma nova atenção àquilo
- 19:12que IA ser falado. Então percebia claramente,
- 19:17muitas das vezes qual era o contexto daquela turma, só a
- 19:19partir dessa, dessa sessão. E desse exercício, tu viste ou
- 19:25falámos aqui que realmente Oo faixa?
- 19:28Ou Oo intervalo de das idades era variado e das geografias
- 19:34também era variado deste o exemplo de uma escola de Lisboa,
- 19:37mas andaste por outras geografias aqui em Portugal.
- 19:41Sim, andei. Eu fui a escolas desde muitas do
- 19:45dos centros urbanos, Lisboa, Coimbra.
- 19:48Fui à minha escola onde eu andei e foi bastante interessante.
- 19:51Até as escolas mais do interior de castelo branco, estive em
- 19:55aldemira várias vezes em na escola de aldemira.
- 19:57Até fiz amizade com muitas professoras, mas via que assim a
- 20:00realidade variava um pouco a relação relativamente às
- 20:03escolas, até dentro da, por exemplo, até dentro da própria
- 20:06escola havia. Turmas que é assim costuma se
- 20:12dizer na brincadeira que a turma a eram os os meninos bem
- 20:15comportados e a turma g, que era a última, já eram os meninos
- 20:17mais mais mal comportar te mas notava se muitas das vezes entre
- 20:21até nas próprias turmas havia essas assimetrias e.
- 20:25Portanto, era aí era aí que eu queria chegar.
- 20:27Era se tu, se tu tinhas identificado geograficamente e
- 20:31pelos vistos, tu vais mais longe.
- 20:32Tu dizes que mesmo da dentro da própria escola, consegues
- 20:36identificar essas essas assimetrias.
- 20:38Em função das turmas, portanto, notas que há, por exemplo,
- 20:43consegues identificar geograficamente que há maior
- 20:47tolerância em determinadas regiões do país, comparando com
- 20:50outras, ou isto realmente é um problema transversal?
- 20:54Eu acho que é transversal e não se nota.
- 20:56Eu acho que é. Eu acho que não há.
- 21:01Não há diferença entre o que é que é Oo rural e o que é que é
- 21:06urbano, assim dizer. Acho que nós conseguimos
- 21:09identificar todo o tipo de alunos e todo o tipo de
- 21:12mentalidades em em qualquer, em qualquer ambiente.
- 21:16Não, não, não consigo dizer. Acho que o que eu notava muito
- 21:21mais era o espírito de comunidade.
- 21:24Havia muito mais espírito de interajuda.
- 21:28Isso tudo mais se calhar nos mais menos urbanos e depois nos
- 21:33meios urbanos já era, não sei, já era uma coisa mais.
- 21:37Interajuda com integração, por exemplo, naqueles termos que tu
- 21:41dizias que eram ofensivos. É isso que queres dizer que que
- 21:44não se usavam tanto nos meios não urbanos?
- 21:49O que é que queres dizer por interajuda?
- 21:51Por exemplo, muitas das vezes as sessões eram porque os alunos
- 21:55que havia um grupo de alunos que queria fazer um trabalho sobre a
- 21:58temática e então não estavam lá e faziam a sua Mini apresentação
- 22:03do trabalho. E notava se que havia mais ajuda
- 22:06e os alunos, se calhar eram mais, não sei uma comunidade
- 22:09mais coesa, muitas das vezes reparavam nisso, eu nas nos
- 22:13centros urbanos já era mais se calhar, um cada um por si, um
- 22:17cada 11, coisa muito mais individualizada, eu acho e
- 22:21reparava muitas vezes nisso agora, obviamente aquelas muitas
- 22:26sessões havia até lá está de de as turmas também variavam muito,
- 22:29obviamente acho que variavam mais.
- 22:31Pela questão do género, e eu sei que estou aqui a fazer o se
- 22:34calhar, mas é, mas é mesmo? Se, por exemplo, o turmas com
- 22:38muitos rapazes, haveria se calhar muito mais esportividade
- 22:42e as raparigas eram um bocadinho mais contidas, e então com os
- 22:46rapazes havia mais aquelas boquinhas, aquelas piadinhas, e
- 22:49essas disso tudo, as raparigas mais mais contidas.
- 22:53Mas mas depois também estamos a generalizar muito, não é porque
- 22:55depois também há casos que fogem a regra, mas a maioria.
- 22:59É sempre esse espírito que os rapazes acham porreiro de estar
- 23:02a mandar boquinhas ou estar a mandar piadas sobre os colegas,
- 23:07sobre a sessão. Sobre isso tudo, as raparigas
- 23:10são sempre mais caladas. Imagino que que houvesse no meio
- 23:13dessas turmas ou conseguisse identificar pessoas LGBT, os
- 23:16alunos EE notava se alguma. Muitas faziam o seu próprio
- 23:22coming out nas nas próprias sessões, muitas das vezes até
- 23:25sem os professores saberem que também poderia ser.
- 23:29Esse é perigoso, não é? Nós temos que pensar que são
- 23:32alunos e que muitos deles não têm a sua autonomia para poderem
- 23:37ou não sabemos se têm as ferramentas necessárias para
- 23:40poderem lidar com com as consequências desse caminho
- 23:43alto. Mas muitas das vezes, acho que
- 23:47era pelo próprio silêncio que eu, eu, eu, eu, eu quando dava
- 23:52as sessões. E aliás, a fazer que estão
- 23:55sempre a desfrisar isso nas sessões.
- 23:58Muitas das vezes eram os silêncios que que eu sabia que
- 24:02poderiam dizer alguma coisa, não é porque e que e que eram ouro
- 24:06para essas pessoas, porque vamos a ver.
- 24:08Eu, no meu tempo, eu não não tivesse a oportunidade de irem à
- 24:12minha escola e de dizer, olha, Bora lá.
- 24:15Agora, nestes próximos 90 minutos, Bora lá falar sobre
- 24:17este tema, não é? E falar sobre isto.
- 24:20EE acredito no teu Miguel, mas era era super importante.
- 24:24Eu via isso, eu eu via isso. O reflexo nas nas pessoas que lá
- 24:27estavam, especialmente para as pessoas JBT para uma
- 24:30oportunidade única para elas perceberem, OK, da minha turma,
- 24:35quem é que tem 11 opinião positiva em relação a isto?
- 24:39Quem é que tem uma opinião negativa, não é?
- 24:43E acho que isso era ouro para eles, para essas pessoas, e eu
- 24:45acreditava que. Ao fazermos isso é que estamos
- 24:49ali, a quebrar um ciclo. Não é invisibilidade, porque
- 24:52estamos a dar visibilidade a quem não tem a coragem de falar
- 24:55sobre sobre isso ou de exprimir durante as o contexto de turmas,
- 24:59professores e isso tudo. E acho que a importância das das
- 25:03estações estava aí. É em quem?
- 25:05Se calhar, no seu próprio silêncio, conseguia ver e
- 25:08avaliar, OK, eu, esta pessoa? O meu colega, consigo confiar
- 25:12naquele colega? Se calhar já não consigo confiar
- 25:14tanto porque não tem uma opinião tão positiva em relação a isto.
- 25:18Ou aquele professor ou aquela professora, posso contar com a
- 25:22opinião dela ou não? EE, acho que isso era era o mais
- 25:25importante. EE, eu notava muitas vezes nos
- 25:27silêncios de quem não participava nestas sessões,
- 25:31pensava que OK, isto se calhar. De alguma forma está a tocar ou
- 25:35a ela, ou ou ou ou porque tem um irmão ou uma irmã, ou um sim,
- 25:39SIM 1 alguém familiar ou assim que estava ali mais contido,
- 25:43seria muito mais interessante. Portanto, tu vias que enfim, que
- 25:46que quem pudesse ser LGBT ficava mais aliviado.
- 25:49Não é óbvio que a sua realidade era abordada nessas nessas
- 25:52sessões e sentias da mesma forma que aqueles que.
- 25:57Quando tinham a oportunidade de de lançar, de fazer aquilo, o
- 26:00brain storming, de lançar para a turma ou para a sessão as
- 26:04palavras que que que usavam para classificar pessoas LGBTs, tu
- 26:08notavas que algumas vezes essas palavras eram usadas para
- 26:11atingir determinado ou determinadas pessoas específicas
- 26:14presentes. Em em situações em que se
- 26:17decidiam alguns limites. EE eram.
- 26:21Muitas das vezes eu quando me apercebia disso, eu notava isso
- 26:24e depois até comentava com os professores no final da sessão a
- 26:27dizer, olhem aquela eu presenciei esta atitude ou
- 26:29aquela atitude que eu não achei que fosse mais correta do que o
- 26:32aluno ou daquela aluna. E notava que muitas poderiam ser
- 26:35direcionadas muito no início, depois a coisa.
- 26:40Eu acho que com o tempo, há coisas há.
- 26:44Já se tornou lá mais nas últimas sessões em que que eu estive.
- 26:48E acho que também se calhar, um bocadinho vindo do contexto
- 26:52desta mudança que nós estamos todos a viver.
- 26:54Não é de crescerem extremismos e tudo isso.
- 26:57Acho que a coisa já era muito mais direta.
- 26:59E eu presenciei nas últimas sessões coisas que eu achava que
- 27:02nunca tinha presenciado, de ataques mesmo diretos, pessoas
- 27:05que se tinham acabado de assumir, por exemplo, ou fazer o
- 27:08caminho alto, e rapazes, por exemplo, a atacarem diretamente
- 27:13as pessoas que tinham feito. Isso e que foi muito difícil de
- 27:16lidar com com essas situações. Ou seja, então estamos a andar
- 27:19ao contrário. Quer dizer, deveria, deveria
- 27:21ser, digo. Eu, eu fui notando é que se
- 27:26calhar no início a coisa era passava com maior neutralidade.
- 27:31E agora? E no final, nos últimos anos, a
- 27:34coisa já era mais. Havia mais pessoas interessadas
- 27:37em falar sobre esta temática e a defenderem a comunidade LGBT
- 27:42acerrimamente e mais com com muito mais forço como depois
- 27:46também havia o oposto, não é de pessoas que atacavam com mais
- 27:49veemência quem estas questões da LGBTE isso tudo, acho que notou
- 27:54mais os ânimos mais exaltados nestas últimas sessões.
- 27:59Sim, e principalmente até depois da pandemia.
- 28:03Eu lembro me de ter conversas com professores em que eles
- 28:05diziam eu não sei o que é que aconteceu porque eles estiveram
- 28:07em casa com a pandemia, tiveram, tiveram todos a guardar energias
- 28:12e isso tudo para depois chegarem aqui parecerem muitos, parecerem
- 28:15completamente exaltados e completamente agressivos Na Na.
- 28:21Homofóbico. Também também.
- 28:23E eu notei muito nas últimas. Lá está 2022, 2023, notei muito
- 28:28esses animes todos exacerbados. Portanto, aquilo, aquele
- 28:32dualismo, aquela aquele radicalismo que que temos vindo
- 28:36a notar na sociedade, também foi levado para para essas sessões,
- 28:42aparentemente. Ou seja, essas sessões foram
- 28:44contaminadas também por aquilo que tem vindo a acontecer na
- 28:47sociedade. Não é uma última pergunta tu,
- 28:50tu, porque estás a ver isto? O tempo passa, passa mesmo num
- 28:53instante tu costumas ser abordado, ou costumava ser
- 28:55abordado no final, ou foste alguma vez abordado No No final
- 28:58dessas aulas por algum aluno LGBT que quisesse contar.
- 29:02Algum caso específico ou pedir ajuda?
- 29:05Sim, sim, sim. Inúmeras vezes.
- 29:07Aliás, nós no final costumávamos fazer uma.
- 29:11Costumávamos fazer uma atividade que chamávamos o boião das
- 29:14perguntas, em que cada aluno ou cada aluno poderia fazer uma
- 29:21pergunta em anónimo, e não sem ser identificado.
- 29:24Recebia muitas das vezes muitas perguntas perguntarem, poderiam
- 29:28falar comigo no final da sessão porque queriam contar uma
- 29:30história? Ou assim, ou se ou se poderem
- 29:35ter contacto para poderem falar comigo.
- 29:38Obviamente, eu não não era permitido partilhar os meus
- 29:40contactos pessoais. Não é por uma questão também,
- 29:43essas pessoas também eu tinha consciência que me podiam ver um
- 29:46bocadinho como um modelo, não é de, de, de referência, ou assim.
- 29:51EE, para não haver confusão, mas de resto, havia muitos pedidos
- 29:55para para depois falar um bocadinho à parte.
- 29:57E eu dizia muitas das vezes, olhem ao vou almoçar, por
- 30:01exemplo, no refeitório. Se quiserem falar comigo, dêem
- 30:03me uma palavrinha e podemos falar um pouco sobre sobre.
- 30:06E muitas, muitos alunos e muitas alunas vinham ter comigo no
- 30:09final para para falar sobre as suas experiências e sobre os
- 30:14seus processos também. Muitas, muitas das vezes de
- 30:17caminho alto para algumas pessoas, para outras não.
- 30:19E vinham ter comigo com com esses casos.
- 30:23Lembro me, por exemplo, em Santo tirso, numa sessão em que eu saí
- 30:27da sessão e fui completamente seguido por um por um rapaz que
- 30:33eu queria muito falar comigo e falou comigo na escola.
- 30:38Mas depois eu saí da escola e continuo a seguir, me e queria
- 30:41vai continuar a falar comigo? E eu lembro me racisamente desse
- 30:44desse rapaz. E pronto.
- 30:46E até me quis convidar para a casa dele que eu tinha que para
- 30:49a casa dele conhecer a mãe dele e não sei quê.
- 30:51Deixa estar, mas sim, mas aconteceu muitas vezes.
- 30:57Isso como vês? O tempo passa a correr e isto é
- 31:00sempre mais rápido do que aquilo que nós que nós pensamos.
- 31:02Vou te fazer uma última pergunta antes de te agradecer, ou
- 31:06aproveite já para te agradecer também a tua presença aqui.
- 31:10EEE acima de tudo também agradecer te aquilo que tens
- 31:12feito pela pela comunidade nunca é demais e também nunca somos
- 31:15demais quando quando se trata de de de ajudarmos outros que que
- 31:21que vão necessitando em diferentes fases das suas vidas,
- 31:24daquilo que por vezes é muito pouco, que possamos possamos
- 31:27fazer agradecimentos feitos. Olha, perguntava te que título é
- 31:31que tu usarias a este episódio? Obrigado eu, Miguel por passou
- 31:36muito rápido. Eu pensava que IA falar mais.
- 31:39Mas OK, mas obrigado e obrigado também a todos que também nos
- 31:43estão a ouvir. Espero que não ter ficado muito
- 31:46chato, mas eu pensei antes de começar isto, pensei, OK, embora
- 31:49lá falar de coisas importantes, mas sem ficar aborrecido.
- 31:54Para quem está a ouvir um nome para este episódio, não sei.
- 32:01AI que difícil. Eu não estava nada à espera
- 32:03desta pergunta. Esta é uma partidinha que eu
- 32:06qualquer dia deixa de ter. Surtir efeito, mas por enquanto
- 32:11ainda vai surtindo. Talvez educação em
- 32:14descarraconstrução, porque porque as sessões eram em em
- 32:20contexto não formal e basicamente o que nós fazíamos
- 32:24lá era desconstruir, de desconstruir os conceitos,
- 32:28desconstruir palavras, preconceitos, desconstruir
- 32:31identidades e isso tudo para nós chegarmos a um consenso.
- 32:35E acho que é a meu ver, pessoal. Nós ganhamos muito mais
- 32:40conhecimento e profundidade sobre os temas, à medida que
- 32:44vamos desconstruindo aquilo que vamos olhando e o olhar que
- 32:47vamos tendo sobre as coisas. Muito bem, gostei, gostei muito.
- 32:52Fica assim, então. Educação em desbarra, construção
- 32:57muito bem. Pedrinho, muito obrigado.
- 33:02E até à próxima falaremos mais, com certeza e muito obrigada.
- 33:06Olha, obrigada, obrigada a todos.