Latest / E se...? / E se o saber ocupar lugar?
Transcript
- Pedro Figueiredo: Olá, bem-vindo aqui a mais episódio do Podcast. E se...? Isto que eu estou a hoje, gravar este episódio, acho que ainda não tinha acontecido, foi... Este episódio vem no seguimento do episódio sobre... se eu criasse telejornal, e estou a gravá-lo acabando de gravar outro episódio. Porquê? Porque é normal quando estamos a... neste caso a falar, eu estou a falar quer dizer que estou a pensar gravei o episódio sobre o telejornal e é episódio sobre partilha de informação, conhecimento, educação... Eu estou a falar e automaticamente estou a estimular o meu cérebro a essa reflexão. Assim que pus para parar a gravação, para terminar o episódio, o meu cérebro disse isto. E se o saber ocupar lugar? Porquê? Porque eu estou... de uma forma, que é a minha visão, a mostrar nesse episódio do Telejornal que aquilo que nós consumimos no Telejornal hoje dia, para mim, na minha visão, não é positivo. Não ajuda, não acrescenta, inclusive desajuda. Cria frustração, cria desânimo, cria medo, cria preocupação, cria frustração, série de emoções que não são... positivas. E isso ocupa espaço, nem que seja, durante determinado tempo. Ocupa espaço no meu cérebro. Primeiro, o espaço que foi estar a observar no telejornal e depois porque, talvez nem todas as notícias, mas há algumas que ficam a pairar. O termo técnico é ruminar. Começamos a ruminar sobre estas notícias, sobre estas ideias e isto tem o seu tempo, retira a energia, está a ocupar espaço literal no nosso cérebro. Então veio o pensamento. E se o saber ocupar lugar? Porque é uma expressão que nós sempre ouvimos, o saber não ocupa lugar. De alguma perspetiva e, calhar, até já lá vamos, se calhar. poderá estar certa, mas eu vejo pelo menos duas perspetivas que talvez a expressão esteja incorreta ou que não seja tão válida. A primeira é esta, porque eu adoro, estudar sobre o cérebro como é que o cérebro funciona, porque na base isto... vai explicar muita coisa, a fisiologia, os nossos comportamentos, as nossas emoções, tudo aquilo que se passa. O cérebro está ali muito no centro de tudo isso. E, portanto, para mim, estudar o cérebro é super estimulante. E com esse estudo do cérebro eu aprendi que pensamento não passa de estímulo. ou uma sequência de estímulos elétricos entre as nossas células neurais, que são os neurónios. Na prática pragmática ao microscópio é isto que está a acontecer. Há potencial químico e elétrico entre estas células e é criado circuito entre eles. Portanto, há qualquer coisa que está, literalmente, a acontecer. está a ocupar espaço, porque esse circuito, essas células nervosas, ocupam espaço e está a ocupar tempo, porque demora o que demorar. Portanto, sempre que eu estou a pensar algo, eu estou a utilizar determinados circuitos neurais e estou a ocupar determinado tempo. Como é que eu consigo que esse circuito aconteça? Normalmente, com base. tudo o que já me aconteceu, na minha experiência. E essa experiência foi-se traduzido estimulou na altura, agora se acontecer aqui qualquer coisa, estão a acontecer, aliás, neste momento, vários estímulos, através, e nós vamos colhendo isso, já isto já foi abordado noutros episódios, através dos nossos sentidos, portanto, eu estou a colher informação, estão a existir estímulos, e o meu cérebro está a processar todos esses estímulos. comparação com tudo aquilo que ele já tem. O que ele já tem é aquilo que nós chamamos de conhecimento. E conhecimento, basicamente, são circuitos neurais existentes. Que porque, talvez muitas vezes por repetição, que é assim que nós aprendemos, lemos várias vezes aquilo, ouvimos falar sobre aquilo algumas vezes, ou aquilo teve muito impacto para nós, esses circuitos neurais foram... repetidos, foram reforçados e estão naquilo que nós chamamos na nossa memória. Outros que não foram repetidos ou que não tiveram impacto, aconteceram talvez, vamos dizer assim, uma vez ou duas, e desapareceram, como se diz, ou usas ou perdes Seja as nossas capacidades, sejam esses mesmos circuitos neurais. Tudo aquilo que eu digo é o meu conhecimento, o que eu sei, são apenas circuitos neurais que eu neste momento, por uma questão de repetição e de reforço, tenho ainda guardados, que funcionam, eles funcionam, e por isso eu posso utilizá-los quando me apetecer ou quando assim é necessário perante determinado estímulo, que faz sentido utilizar. Portanto, isto é conhecimento. Por isso, o conhecimento é o saber. Portanto, o saber está a ocupar realmente lugar. Está a ocupar o lugar dos sistemas, dos circuitos neurais que neste momento existem. O que não existe é conhecimento que eu não tenho. Portanto, e nós temos conjunto de células nervosas limitado, temos uma quantidade de circuitos que ainda que sejam... Nem sei quantos, mas vamos imaginar trilhões e por aí fora. Mas ainda assim, o que acontece é que a estimulação desses circuitos depende também, então, da captação dos estímulos depende da nossa atenção. E nós não conseguimos estar a dar atenção a tudo, a todos os pormenores senão nós rebentávamos. Simplesmente não era fazível, não era sustentável. Por isso, nós vamos escolhendo aquilo que para nós é mais importante e faz mais sentido. Seja por uma questão de sobrevivência, para eu garantir aqui adaptação, seja por uma questão de reforço do que eu já tenho. Ok. Então, eu sei que se houver algo que eu a partir de agora nunca mais ouça falar, dê atenção, pense sobre isso, faça etc. A probabilidade disso vir a desaparecer é muito grande. Por isso nós vemos a quantidade de doenças neurológicas que estão a aparecer. Quantidade de estímulos é demasiada coisa. Se calhar, na verdade, eu não consigo prestar atenção a nada concreto. A capacidade de concentração vai sendo cada vez menor. Na verdade, é tudo rápido e tudo fácil, mas nada é profundo, nada é realmente trabalhado. Portanto, essas capacidades, e neste caso, esses circuitos, desaparecem. Portanto, aquilo que eu repetir e reforçar é mantido e guardado. Ocupa lugar. O que não é reforçado e repetido vai acabar por desaparecer e vai deixar de ocupar lugar. Portanto, na prática fisiologicamente, o saber ocupa o lugar. Depois, há outra perspectiva Logo a seguir, como o meu cérebro disse isto, e eu comecei a pensar minuto, dois minutos sobre realmente a parte fisiológica, depois também pensei assim. Também há outro lugar, lugar que não tem a ver propriamente com... Também tem bocadinho a ver com fisiologia. Se calhar vou ter... não sei se vou conseguir fazer essa ponte da melhor forma possível. Mas ocupa lugar naquilo que nós consideramos a nossa identidade. é lugar, vamos dizer assim, entre aspas. Porque uma coisa é mesmo lugar literal, se neurónios existem, outra coisa é ocupar espaço apenas de conteúdo, como fosse na cloud, que é a nossa identidade, que é o nosso ego. Porquê? Porque muitas vezes o conhecimento, vamos dizer, é positivo ou não? Se ajudar, sim! se me ajuda a estar bem, a contribuir para a minha vida? Sim. Se ajuda a contribuir para vida dos outros? Sim. Agora, este conhecimento, se for negativo, se só me deprime, se só me causa ansiedade, medo e por aí fora, se calhar esse conhecimento não é positivo, como vimos então no episódio anterior do Telejornal. Mas, acima de tudo, muitas vezes nós olhamos para o conhecimento como uma maneira, uma estratégia para nos posicionarmos na sociedade. E por isso é que também tem a ver com parte fisiológica, porque isto tem a ver com a nossa sobrevivência social. Porque se eu me coloco, se eu tiver muito conhecimento, e eu conheço várias pessoas assim, inclusive sempre me vi como uma delas. Esta sempre foi a minha estratégia. Portanto, bem mais... recentemente é que eu me percebi disto e vou tentando equilibrar bocadinho as coisas, que é... se eu tenho mais conhecimento ou se eu sinto que tenho conhecimento ao pé dos outros, isto reforça o meu ego e eu sinto-me mais confiante. E a minha relação muitas vezes com os outros vai ser exatamente através da passagem e da demonstração... todo esse meu conhecimento. E por isto, isto vai ocupar lugar preponderante na minha maneira de ser e de estar, nas minhas relações. Por isso, sim, ocupa lugar. Porque está-me a condicionar o meu comportamento. Vou-me relacionar agora com estas pessoas num jantar e lá vou eu de, cada oportunidade, mostrar aquilo que eu sei. sobre este tema, sobre o outro tema e por aí fora. Não quer dizer que eu alguma vez tenha feito alguma coisa com isso, ou isso tenha realmente impacto na minha vida, ou eu tenha feito diferente. Mas, pelo menos, no que diz respeito à minha interação e à minha posição. O Pedro é... O Pedro é uma pessoa com conhecimento, uma pessoa intelectual, é uma pessoa... O que seja. E ganha determinado respeito, determinado status. Portanto, há aqui esta perspectiva fisiológica e a outra de sobrevivência social que, como já vimos noutros episódios, também tem a sua ligação à parte fisiológica, que nós realmente podemos saber ou dizer que o saber realmente ocupa lugar. De uma forma também abstrata, poderíamos dizer que não ocupa lugar. no sentido que, se calhar, nunca é demais ganhar mais conhecimento, se, lá está, se for para realmente ter impacto positivo nas nossas vidas. Senão, ocupa o lugar, mas de forma negativa. Portanto, duas perspetivas para dizer que o saber ocupa lugar. e uma perspetiva que talvez possamos dizer que não ocupa lugar no sentido apenas de quanto mais melhor, porque assim podemos estar mais capacitados, mais preparados, mais empatia, mais comunhão, mais sociedade. Ok? Faz sentido. O que interessa aqui não é dizer que uma está certa sequer e que a outra está errada, é só darmos... perspectivas diferentes sobre exatamente a mesma coisa e porque ao refletir no espaço que ela ocupa fisiologicamente, eu agora se calhar daqui para a frente vou dizer assim, se isto ocupa espaço, será que eu quero este conhecimento a ocupar espaço no meu cérebro? O que se passa com a vizinha? Será que isso é espaço bem utilizado? nos meus circuitos neurais? Não, não serve para nada. Então deixa estar. Será que este conhecimento sobre saúde, sobre finanças pode ser interessante para a minha vida? Pode-me ajudar a mim, aos meus filhos, às pessoas que estão mais próximas de mim? Sim. Então deixo-me ocupar esse lugar. E é isto. A perspectiva que eu tenho sobre as coisas condiciona exatamente depois o meu comportamento sobre as mesmas. Então vale a pena refletir, até neste caso sobre expressões que sempre ouvimos dizer, mas que nunca, se calhar, refletimos seriamente e aprofundadamente sobre as mesmas. Portanto, fica aqui a sugestão de pensar nesse espaço do saber e do conhecimento e quem sabe até tomar decisões diferentes daqui para frente. Até a próximo episódio e até lá, cuide de si.