Latest / MADTalks | A Partir Pedra / MADTalks #01 | Entre espiões, lojas e fantasmas
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- 0:12SPEAKER_01: do A Partir Pedra.
- 0:13SPEAKER_01: Este episódio foi criado com o apoio de Inteligência Artificial a partir de
- 0:17SPEAKER_01: um artigo do A Partir Pedra e da análise de fontes complementares.
- 0:21SPEAKER_01: Antes da publicação,
- 0:21SPEAKER_01: o conteúdo é sujeito à revisão editorial
- 0:23SPEAKER_01: da respeitável loja Mestre Affonso Domingues nº 5.
- 0:26SPEAKER_01: As reflexões dos apresentadores não representam necessariamente posições oficiais
- 0:30SPEAKER_01: da loja ou da obediência.
- 0:32SPEAKER_01: Hoje partimos de Entre Espeões,
- 0:34SPEAKER_01: Lojas e Fantasmas, escrito por João B. e publicado a 15 de novembro de 2025.
- 0:38SPEAKER_00: E é uma excelente base para a nossa conversa de hoje.
- 0:41SPEAKER_01: Sem dúvida.
- 0:42SPEAKER_01: E para iniciar este nosso mergulho,
- 0:44SPEAKER_01: gostava que imaginássemos aqui um cenário um bocado caricato.
- 0:47SPEAKER_01: Vamos a isso.
- 0:48SPEAKER_01: Imaginemos uma sala onde um administrador executivo de
- 0:52SPEAKER_01: uma multinacional gigantesca tem de se sentar em absoluto silêncio e senta-se lá
- 0:57SPEAKER_01: para ouvir com toda a atenção e deferência as instruções ou as reflexões de
- 1:02SPEAKER_01: um operário fabril.
- 1:03SPEAKER_00: Pois, o que no mundo exterior seria estatisticamente bastante improvável, não é?
- 1:07SPEAKER_01: Exatamente.
- 1:07SPEAKER_01: Na nossa estrutura social habitual isso não acontece.
- 1:09SPEAKER_01: Mas, segundo o texto que vamos analisar hoje,
- 1:12SPEAKER_01: é exatamente esta fricção,
- 1:13SPEAKER_01: esta suspensão de hierarquias que constitui o verdadeiro método de trabalho
- 1:18SPEAKER_01: da maçonaria.
- 1:19SPEAKER_00: É verdade.
- 1:20SPEAKER_00: E o que salta imediatamente à vista nessa contraposição,
- 1:22SPEAKER_00: e é uma dissonância fascinante,
- 1:24SPEAKER_00: é que a realidade quotidiana e filosófica de uma loja...
- 1:27SPEAKER_00: É infinitamente mais serena do que as narrativas de ficção fazem querer.
- 1:30SPEAKER_01: Muito mais.
- 1:31SPEAKER_00: Ou até do que aquelas gordas dos jornais sugerem, não é?
- 1:34SPEAKER_00: O nosso propósito nesta análise é tentar compreender a instituição não através
- 1:39SPEAKER_00: de suspeitas superficiais que aparecem pontualmente no espaço público,
- 1:42SPEAKER_00: mas mergulhando mesmo nos seus princípios fundadores.
- 1:45SPEAKER_00: O aperfeiçoamento humano, a descrição, a tolerância.
- 1:49SPEAKER_00: E o texto do João B serve-nos de bússola precisamente por causa desse seu tom ponderado.
- 1:53SPEAKER_00: E até um bocado irónico, digamos.
- 1:55SPEAKER_01: Bem, vamos lá desembrulhar isto,
- 1:57SPEAKER_01: porque quando limpo certas parangonas sobre influências excessivas,
- 2:01SPEAKER_01: a tendência natural do cérebro humano é preencher logo as lacunas com
- 2:04SPEAKER_01: o pior cenário possível.
- 2:06SPEAKER_01: Completamente.
- 2:07SPEAKER_01: Mas a forma como o João B.
- 2:08SPEAKER_01: pega nessa acusação de que a maçonaria exerce uma influência excessiva e
- 2:12SPEAKER_01: a subverte é brilhante.
- 2:14SPEAKER_00: Sim, ele assuma culpa, entre aspas.
- 2:17SPEAKER_01: Exato.
- 2:18SPEAKER_01: Ele escreve que, sim, de facto, existe uma influência excessiva.
- 2:21SPEAKER_01: Eles influenciam-se excessivamente uns aos outros para crescer intelectualmente,
- 2:26SPEAKER_01: para estudar mais.
- 2:27SPEAKER_00: Para cultivarem a tolerância?
- 2:28SPEAKER_01: Isso mesmo.
- 2:29SPEAKER_01: E para questionarem os seus próprios preconceitos.
- 2:32SPEAKER_01: É virar o tabuleiro do avesso por completo.
- 2:34SPEAKER_00: O que é fascinante aqui é o mecanismo psicológico por trás dessa narrativa mediática.
- 2:39SPEAKER_00: Revela imenso sobre a nossa sociedade moderna, não achas?
- 2:42SPEAKER_01: Sem dúvida, há ali um cinismo.
- 2:43SPEAKER_00: Um cinismo latente, exato.
- 2:45SPEAKER_00: Quando se repara que um grupo de indivíduos se reúne em privado,
- 2:49SPEAKER_00: à porta fechada, assume-se quase por defeito que estão a conspirar.
- 2:52SPEAKER_01: Como se fosse impossível juntarem-se só para pensar.
- 2:55SPEAKER_00: Exatamente.
- 2:56SPEAKER_00: A premissa de partida dos nossos tempos parece ser a de que o ser humano já não
- 3:00SPEAKER_00: se reúne só pelo prazer de debater filosofia ou de tentar elevar o seu caráter.
- 3:04SPEAKER_00: E, bem, estatisticamente,
- 3:06SPEAKER_00: ao analisarmos qualquer grupo humano, sabemos que vão existir falhas individuais.
- 3:10SPEAKER_01: Claro, as organizações são feitas de pessoas falíveis.
- 3:13SPEAKER_00: Pois, ou desvios comportamentais.
- 3:15SPEAKER_00: Mas o erro lógico acontece quando se confunde a exceção com a regra.
- 3:19SPEAKER_01: Certo.
- 3:20SPEAKER_01: Ou a falha do indivíduo com a missão do grupo.
- 3:22SPEAKER_00: Nem mais.
- 3:23SPEAKER_01: É como aquela ideia de que se um engenheiro civil ignora as regras de segurança e
- 3:27SPEAKER_01: um prédio cai,
- 3:28SPEAKER_01: nós não concluímos logo que a engenharia é uma conspiração
- 3:31SPEAKER_01: para deitar prédios abaixo.
- 3:32SPEAKER_00: É um excelente exemplo.
- 3:34SPEAKER_01: E para cimentar quem são afinal as pessoas que procuram este percurso,
- 3:37SPEAKER_01: trago para a nossa conversa a primeira citação literal do artigo de João P. Força.
- 3:42SPEAKER_01: Ilustra muito bem este perfil.
- 3:44SPEAKER_01: Ele escreve assim,
- 3:45SPEAKER_01: a maçonaria atrai pessoas curiosas, cultas,
- 3:48SPEAKER_01: inquietas,
- 3:49SPEAKER_01: atrai quem procura reflexão,
- 3:51SPEAKER_01: filosofia,
- 3:52SPEAKER_01: ética, simbolismo, camaradagem, silêncio interior e, sim, também debate civilizado.
- 3:58SPEAKER_00: Uau, debate civilizado.
- 4:00SPEAKER_01: Que é um conjunto de características que faria muita falta na praça pública, não é?
- 4:04SPEAKER_00: Faria toda a falta.
- 4:05SPEAKER_00: E vale a pena de termos,
- 4:07SPEAKER_00: nos termos exatos que o autor usa aí,
- 4:10SPEAKER_00: inquietação, silêncio interior, debate civilizado.
- 4:13SPEAKER_01: Não estamos a falar de um clube recreativo.
- 4:15SPEAKER_00: De todo.
- 4:16SPEAKER_00: Estas palavras pressupõem um esforço ativo, algo contínuo.
- 4:20SPEAKER_00: O debate civilizado,
- 4:21SPEAKER_00: neste contexto maçónico,
- 4:23SPEAKER_00: não tem nada a ver com o debate que vemos nas caixas de comentários
- 4:25SPEAKER_00: das redes sociais.
- 4:26SPEAKER_01: Ah, pois não.
- 4:27SPEAKER_01: Onde o objetivo é destruir o outro em 30 segundos.
- 4:30SPEAKER_00: Exato, para ganhar a discussão.
- 4:32SPEAKER_00: O método iniciático baseia-se na construção conjunta.
- 4:35SPEAKER_00: Essa inquietação que ele refere é um motor de arranque.
- 4:38SPEAKER_00: Ninguém entra neste percurso se achar que já atingiu a perfeição moral, pois não.
- 4:42SPEAKER_01: Claro que não.
- 4:43SPEAKER_01: A procura acontece porque a pessoa reconhece as suas falhas.
- 4:46SPEAKER_00: E sente aquela necessidade vital de ir mais fundo,
- 4:49SPEAKER_00: de encontrar um significado para além do dia-a-dia.
- 4:52SPEAKER_01: O que nos obriga a olhar para a demografia destas salas.
- 4:56SPEAKER_01: Se o objetivo é este debate ético profundo, quem é que tem efetivamente acesso a este espaço?
- 5:02SPEAKER_00: Essa é a grande questão.
- 5:03SPEAKER_01: A imagem popular, a ficção, foca-se nas elites.
- 5:07SPEAKER_01: Imagina-se salas cheias de políticos,
- 5:09SPEAKER_01: de topo e magnatas, mas o texto revela uma base completamente diferente.
- 5:14SPEAKER_00: Completamente.
- 5:15SPEAKER_01: Introduz aqui a segunda citação literal do João B.
- 5:18SPEAKER_01: É muito curta, mas é demolidora para essas teorias todas.
- 5:22SPEAKER_01: Ele diz, a maçonaria não escolhe profissões, aceita pessoas.
- 5:26SPEAKER_00: Fantástico.
- 5:27SPEAKER_01: E essa diversidade é, possivelmente, uma das dinâmicas mais ricas do método.
- 5:32SPEAKER_01: E das menos compreendidas também.
- 5:34SPEAKER_00: Pois, porque quem está de fora não vê.
- 5:36SPEAKER_01: Exato.
- 5:37SPEAKER_00: Uma loja pretende ser um microcosmo da própria sociedade.
- 5:41SPEAKER_00: Reúne no mesmo espaço vivências que raramente se cruzariam cá fora.
- 5:44SPEAKER_00: E é por isso que tens lado a lado um académico reconhecido,
- 5:47SPEAKER_00: um professor, um empresário ou até alguém abraços com o desemprego.
- 5:52SPEAKER_01: Quase como uma sala de aula sem títulos, não é?
- 5:54SPEAKER_00: Perfeito.
- 5:56SPEAKER_00: Para compreender isto, as fontes complementares falam-nos muito do conceito da pedra bruta.
- 6:01SPEAKER_01: E aqui convém fazermos um parênteses importante para quem nos ouve.
- 6:05SPEAKER_00: Sim, sobre o termo profano.
- 6:06SPEAKER_01: Isso.
- 6:07SPEAKER_01: Na gíria maçónica, a palavra profano não tem qualquer conotação negativa.
- 6:10SPEAKER_00: Nenhuma.
- 6:11SPEAKER_01: Significa apenas aquilo que está pró-fano, ou seja, diante do templo.
- 6:16SPEAKER_01: Refere-se à vida civil.
- 6:18SPEAKER_01: As profissões, os títulos, o dinheiro, isso fica tudo no bengaleiro, digamos assim.
- 6:22SPEAKER_01: Tudo à porta.
- 6:23SPEAKER_01: Mas a minha questão aqui, e vou vestir a pele de advogado do diabo.
- 6:27SPEAKER_00: Força.
- 6:28SPEAKER_01: Não será humanamente muito difícil para uma pessoa separar o enorme poder que tem
- 6:32SPEAKER_01: na vida pública dessa postura de igualdade dentro da loja?
- 6:35SPEAKER_01: O ego não tem um interruptor que se desliga à entrada.
- 6:38SPEAKER_00: E não tem mesmo.
- 6:39SPEAKER_00: Mas a dificuldade extrema desse processo é exatamente o que lhe dá valor.
- 6:43SPEAKER_00: Não existe um botão mágico, mas existe um método muito rigoroso e sedimentado há séculos.
- 6:48SPEAKER_01: É através das regras lá de dentro.
- 6:50SPEAKER_00: Exatamente.
- 6:51SPEAKER_00: O desbaste dessa tal pedra bruta faz-se com regras de interação que contrariam
- 6:55SPEAKER_00: os nossos instintos de resposta imediata.
- 6:57SPEAKER_00: Por exemplo, num debate dentro de uma loja, um membro não pode simplesmente interromper o outro.
- 7:02SPEAKER_01: Tem de esperar pela sua vez.
- 7:04SPEAKER_00: Sim, e não pode levantar a voz para sobrepor o seu argumento.
- 7:07SPEAKER_00: Muitas vezes a resposta direta é até desencorajada,
- 7:09SPEAKER_00: para evitar que a troca de ideias vire uma disputa de egos.
- 7:13SPEAKER_01: Ou seja, a própria estrutura atua como um travão de mão.
- 7:16SPEAKER_00: É um travão de mão gigante.
- 7:18SPEAKER_00: É exigido que ouça as perspectivas divergentes em absoluto silêncio.
- 7:22SPEAKER_00: Por vezes vindas de alguém que na sociedade teria muito menos influência do que tu.
- 7:25SPEAKER_01: Força a escuta ativa, brutalmente.
- 7:28SPEAKER_00: Mas para alguém admitir que é uma pedra bruta,
- 7:30SPEAKER_00: para assumir as suas falhas perante os outros, exige-se uma vulnerabilidade imensa.
- 7:35SPEAKER_01: Quase impossível na nossa praça pública.
- 7:36SPEAKER_00: Exato.
- 7:37SPEAKER_00: E é aqui que o porquê das portas fechadas ganha toda a lógica.
- 7:41SPEAKER_00: Para enquadrar, trago a terceira citação literal do artigo.
- 7:44SPEAKER_00: A descrição não oculta,
- 7:47SPEAKER_00: preserva o essencial e evita que o trabalho humano e interior
- 7:50SPEAKER_00: que fazemos seja transformado em ruído.
- 7:53SPEAKER_00: Essa distinção conceptual é vital para desfazer equívocos.
- 7:56SPEAKER_00: O João Bessa separa muito bem o secretismo da descrição.
- 8:00SPEAKER_01: São coisas muito diferentes.
- 8:01SPEAKER_00: Totalmente.
- 8:02SPEAKER_00: O secretismo visa esconder ações da sociedade, ações que não resistiriam a um escrutínio ético.
- 8:07SPEAKER_00: A descrição, por outro lado, serve para proteger a privacidade, a intimidade e o foco.
- 8:12SPEAKER_01: É uma proteção do ambiente pedagógico.
- 8:14SPEAKER_00: Pois, porque como não se ensina nada de forma dogmática,
- 8:18SPEAKER_00: tudo é sugerido por símbolos, o silêncio é indispensável.
- 8:21SPEAKER_00: Imagina o que era ter destas reuniões públicas transmitidas nas redes sociais.
- 8:25SPEAKER_01: O trabalho de introspecção perdia-se logo no meio do ruído.
- 8:27SPEAKER_00: Perdi-se completamente.
- 8:29SPEAKER_01: O que me leva a uma metáfora belíssima que encontrei numa das fontes de apoio.
- 8:33SPEAKER_01: É uma reflexão que equipara a integração e o crescimento de uma pessoa ao ato
- 8:37SPEAKER_01: de plantar uma árvore num jardim.
- 8:39SPEAKER_00: Ah, essa analogia é ótima.
- 8:40SPEAKER_01: É que se plantares uma árvore,
- 8:41SPEAKER_01: ela precisa de ser regada com regularidade,
- 8:44SPEAKER_01: precisa de assiduidade e sobretudo num ambiente resguardado.
- 8:47SPEAKER_01: Não a deixas no meio de uma autostrada cheia de vento e poluição.
- 8:49SPEAKER_00: Precisas de uma estufa.
- 8:51SPEAKER_01: Exato.
- 8:51SPEAKER_01: E mais importante, não podes puxar pelas folhas para que ela cresça mais depressa.
- 8:55SPEAKER_01: O processo demora o tempo que demora.
- 8:57SPEAKER_00: Se puxares pelas folhas, arrancas a planta do chão.
- 8:59SPEAKER_01: É o fim da árvore.
- 9:00SPEAKER_00: Pois é.
- 9:01SPEAKER_00: E essa necessidade orgânica de proteção ganha contornos de supervivência
- 9:05SPEAKER_00: quando olhamos para os dias de hoje.
- 9:07SPEAKER_00: A primeira coisa a desaparecer com as portas abertas seria a honestidade intelectual.
- 9:11SPEAKER_01: Com a cultura do cancelamento e tudo mais, não é?
- 9:13SPEAKER_00: Claro.
- 9:14SPEAKER_00: Sob a ameaça desse escrutínio permanente, as pessoas adotam posturas defensivas.
- 9:18SPEAKER_00: Ninguém admite um erro se souber que essa hesitação vai ser dissecada
- 9:21SPEAKER_00: e transformada num soundbite de ridicularização.
- 9:24SPEAKER_01: A descrição é o escudo que permite o erro.
- 9:27SPEAKER_00: Sem a possibilidade de errar num ambiente de confiança, não há aprendizagem real.
- 9:32SPEAKER_01: Mas, e acho que é crucial sublinharmos isto para quem nos ouve,
- 9:35SPEAKER_01: essa fraternidade é uma responsabilidade ética.
- 9:38SPEAKER_01: As fontes são claras em dizer que a camaradagem não serve de capa para impunidade
- 9:42SPEAKER_01: em falhas graves.
- 9:43SPEAKER_00: De todo.
- 9:44SPEAKER_00: Ajuda mútua no aperfeiçoamento, não é cumplicidade em erros.
- 9:48SPEAKER_01: Compreendido esse método, a grande questão que se impõe é que impacto tem isto cá fora?
- 9:53SPEAKER_01: Qual é o valor real destes princípios que parecem quase antiquados para
- 9:57SPEAKER_01: a nossa sociedade acelerada?
- 9:59SPEAKER_00: Se ligarmos isto à visão geral, vemos que a nossa sociedade sofre de algo muito específico.
- 10:03SPEAKER_00: Sofremos da lei do menor esforço e de uma certa tirania do imediato.
- 10:06SPEAKER_01: Queremos tudo para ontem.
- 10:08SPEAKER_00: Exato.
- 10:08SPEAKER_00: Fomos habituados a procurar a gratificação instantânea,
- 10:11SPEAKER_00: temos o pronto a vestir, o pronto a comer e o pior, um pronto a conhecer.
- 10:15SPEAKER_01: É um crescimento de micro-ondas.
- 10:17SPEAKER_00: É mesmo.
- 10:18SPEAKER_00: Substituímos ensaios por resumos de dois parágrafos,
- 10:20SPEAKER_00: na esperança de engolir a sabedoria numa cápsula.
- 10:23SPEAKER_01: E a maçonaria que contrapõe isso com o valor do tempo, com T maiúsculo.
- 10:28SPEAKER_01: Exige paciência.
- 10:29SPEAKER_00: Exige gestão de expectativas.
- 10:31SPEAKER_00: Não é uma varinha mágica.
- 10:33SPEAKER_00: Transforma os indivíduos dando-lhes resiliência.
- 10:35SPEAKER_00: Num mundo de pós-verdade e mediatismo,
- 10:37SPEAKER_00: conseguir manter uma liberdade de consciência ancorada na ética é obra.
- 10:42SPEAKER_01: Gosto muito daquela analogia que opõe o prédio moderno à vetusta-catedral.
- 10:47SPEAKER_01: O prédio é feito em meses, painéis pré-fabricados, pronto a dar lucro.
- 10:51SPEAKER_01: A catedral exigia séculos.
- 10:53SPEAKER_01: Pedreiros que dedicavam a vida sabendo que nem iam ver a obra acabada.
- 10:58SPEAKER_01: Quem constrói o seu caráter assim pacientemente, regressa à sociedade de forma muito diferente.
- 11:03SPEAKER_00: E esse regresso é o verdadeiro impacto social da coisa.
- 11:06SPEAKER_00: A instituição, enquanto corpo, não faz política.
- 11:09SPEAKER_00: Não dita regras legislativas, pois não?
- 11:11SPEAKER_01: Não, de todo.
- 11:12SPEAKER_00: A intervenção faz-se de forma molecular.
- 11:15SPEAKER_00: Devolve à sociedade cidadãos mais tolerantes.
- 11:17SPEAKER_00: Se o método funcionou, a sociedade ganha um melhor construtor, digamos assim.
- 11:22SPEAKER_01: O que nos leva, de forma muito orgânica, à conclusão deste nosso mergulho.
- 11:27SPEAKER_01: Porque quando retiramos as teorias da conspiração e os argumentos de espionagem,
- 11:31SPEAKER_01: o que sobra é notavelmente simples.
- 11:33SPEAKER_00: E despido de qualquer pertenciosismo.
- 11:35SPEAKER_01: Para arrematar, trago a quarta citação.
- 11:38SPEAKER_01: É o resumo final que o João B. faz.
- 11:40SPEAKER_01: Ele chama a maçonaria uma comunidade de irmãos que tentam ser melhores do que eram.
- 11:45SPEAKER_00: É uma síntese que desarma.
- 11:47SPEAKER_01: E que funciona como um espelho da nossa época.
- 11:49SPEAKER_00: Repara, se a simples ideia de um grupo de pessoas se juntar discretamente
- 11:54SPEAKER_00: para tentar ser melhor do que ontem gera tanta suspeita mediática,
- 11:58SPEAKER_00: talvez o problema não esteja nesse grupo.
- 11:59SPEAKER_01: Está no nosso cinismo.
- 12:01SPEAKER_00: Sim, num cinismo quase crónico da sociedade que não consegue conceber
- 12:05SPEAKER_00: que exista aperfeiçoamento humano sem uma intenção oculta por trás.
- 12:09SPEAKER_01: É um reflexo muito revelador, sim.
- 12:11SPEAKER_01: E isso deixamos com um pensamento provocatório final,
- 12:14SPEAKER_01: para todos nós, que nos ouvem, levarmos para casa.
- 12:17SPEAKER_00: Força.
- 12:18SPEAKER_01: Numa era em que passamos a vida a expor tudo o que fazemos,
- 12:21SPEAKER_01: sempre agarrados aos ecrãs,
- 12:22SPEAKER_01: a consumir o barulho alheio,
- 12:24SPEAKER_01: quanto do nosso próprio ruído diário estará a impedir o nosso silêncio interior?
- 12:28SPEAKER_00: E o nosso crescimento, claro.
- 12:30SPEAKER_01: Exato.
- 12:31SPEAKER_01: Será que a falta de portas fechadas nas nossas vidas não nos está a roubar
- 12:34SPEAKER_01: a capacidade de reflexão?
- 12:36SPEAKER_01: Fica à provocação.
- 12:37SPEAKER_00: É o desafio de procurar esse recolhimento no meio da tempestade.
- 12:40SPEAKER_01: Sem dúvida.
- 12:41SPEAKER_01: Fica o nosso convite simpático para lerem o artigo completo no A Partir Pedra.
- 12:46SPEAKER_01: Foi um gosto imenso fazer esta viagem convosco hoje.
- 12:49SPEAKER_01: Foi um gosto sim.
- 12:50SPEAKER_01: Pensem nisto, cultivem o vosso silêncio e até à próxima.
- 12:53SPEAKER_01: Até à próxima.
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