Latest / Elas na Escrita / #37 Vozes que se levantam
Transcript
- 0:00É oi gente, bem vindos a mais um episódio delas na escrita.
- 0:04Estou mais uma vez aqui com uma dupla de autoras maravilhosa que
- 0:07eu convidei pra gente bater um papo com vocês.
- 0:09Estou aqui com a Deise Serena e com a elissandra Souza sejam bem
- 0:12vindas, meninas, muito obrigada pelo convite, estou ô, muito
- 0:15obrigado por aceitarem o convite né?
- 0:16Estou super feliz de ter vocês aqui.
- 0:18O. Convite do encontro é.
- 0:20Exato. E aí estou super curiosa para a
- 0:22gente conversar um pouquinho. E antes da gente começar a
- 0:25conversa, sempre apresenta as autoras para o público e um
- 0:28pouquinho com a gente. Então eu vou contar aqui para
- 0:29vocês. Não sei, gente, um pouquinho da
- 0:30Mini bio das 2, que é só aquele pequeno resumo, né?
- 0:33Que tem tanta coisa que não cabe na Mini bio.
- 0:35Mas vamos lá, a elisandra Souza. Ela é poeta, jornalista,
- 0:39ativista cultural há 24 anos nas periferias de São Paulo, é
- 0:43autora dos livros quem pode acalmar esse redemoinho de ser
- 0:45mulher? Preta, filho do fogo, 12 contos
- 0:48de amor e cura, águas da cabaça, punga e tem participação em
- 0:52antologias literárias diversas. Ela é editora das publicações do
- 0:55coletivo mejipam e coorganizadora, da antologia
- 0:59narrativas pretas. Sarau das pretas, pública preta,
- 1:02manual de publicação independente e ourique sarau das
- 1:05pretas e ela integrou esse sarau também entre 2016 e 2024.
- 1:09Certinho elisandra, certo? Seja bem-vinda.
- 1:12Obrigada, obrigada pelo convite. E a gente está aqui também com a
- 1:15Deise Serena. Ela é artista visual, fotógrafa
- 1:18e poeta, com estudos em sociologia e política na
- 1:21fundação escola de sociologia e política de São Paulo.
- 1:24Ela é autora de tautologias, tem poemas publicados em revistas e
- 1:27páginas digitais, como escamandro, chão da feira,
- 1:30pichet, Rui do manifesto, encontros com a nova literatura
- 1:33brasileira contemporânea do Itaú cultural, solidão, cartografias,
- 1:37volume um e contos de autoras brasileiras e é coidealizadora
- 1:42do projeto poemas para combater o fascismo.
- 1:44Seja bem-vinda, Dayse, e tá lançando um livro novo aí
- 1:47também, né? A gente vai saber um pouquinho
- 1:49mais dele logo mais. E aí, gente, eu convidei vocês
- 1:522, que eu acho legal que vocês transitam por múltiplas
- 1:55linguagens. Eu vejo que vocês estão no
- 1:56ativismo cultural, tão na poesia, tão na narrativa, dão
- 1:59aulas também tem um pouco da música, então eu queria entender
- 2:03como vocês se descobriram é como escritoras primeiro, acho que a
- 2:06gente sempre começa desse ponto de partida para entender esse
- 2:08iniciozinho e como vocês começaram a descobrir que vocês
- 2:11tinham essa voz criativa e narrativa que transita.
- 2:14Por linguagens diferentes, que poderia às vezes estar na
- 2:17poesia, às vezes está numa narrativa mais longa, às vezes
- 2:19está na música, na imagem. Como foi esse processo para
- 2:22vocês de se descobrirem como artistas e começarem a construir
- 2:26essa identidade a partir daí? Olha, eu costumo falar que antes
- 2:31de ser escritora eu sou leitora, né?
- 2:33Então? Ter contato com a leitura.
- 2:36E aí eu quando comecei a ler, né, na escola e tudo mais, eu
- 2:40não tinha muito direcionamento de leitura, né?
- 2:43E aí nasci na cidade de São Paulo, mas fui criada no
- 2:46interior da Bahia. E aí retorno, retorno pra cidade
- 2:49de São Paulo em 96. E aí é quando eu conheço a
- 2:52cultura hip hop, né? E aí eu ouvindo as músicas,
- 2:54letras de rap, eu vou entendendo o que que é periferia, me
- 2:59tornando negra, que até então morena, jambo, todas as.
- 3:03As nomenclaturas, né? E aí não tinha essa consciência
- 3:06nem racial, nem de pertencimento, né?
- 3:09Em relação à periferia e o hip hop, ele faz essa, essa
- 3:13apresentação, né, esse espelho, né, de quem eu era, de qual
- 3:17grupo eu pertencia. E a partir daí que eu começo a
- 3:20ter um direcionamento de leituras, né, de conhecer
- 3:23personalidades negras, né, de conhecer, começar a conhecer os
- 3:27autores negros, né, e os autores e as autoras.
- 3:30E a partir daí, né? Escrevi também por muito tempo
- 3:34em diário. É, então a gente fala que a
- 3:37gente sempre tá bebendo, né, nessas Fontes ancestrais aí, né,
- 3:41com salve a Carolina, né, a gente tá sempre, né?
- 3:45E a escrita de diário foi essa primeira, essa primeira
- 3:48percepção aí pra né? Se descobrir poeta, né?
- 3:53Então, até então não. Eu demorei um tempo, é mesmo com
- 3:58o livro publicado, para dizer que eu era poeta, que eu era
- 4:00escritora, né? Porque até você se apropriar e
- 4:03ter certeza, como se a gente pudesse ou tivesse que pedir
- 4:07autorização para alguém para a gente exercer essa função, né?
- 4:11Então foi ao longo do ativismo mesmo, né?
- 4:14O sarau da cooperifa começa a frequentar ele em 2004, né?
- 4:18Então era super jovem, né, e ter que fazer poesia toda semana e
- 4:22tudo mais. Então, me tornar poeta, me
- 4:26tornar escritora veio com o tempo, né?
- 4:28É, mas com leitora, eu falo assim, olha, entre é ser
- 4:31escritora e leitora, eu sei que leitora, eu sou uma boa leitora.
- 4:35É todo escritor, conversa com um bom leitor, né?
- 4:37E tem uma coisa que me chamou atenção nessa fala, que eu
- 4:39queria voltar um pouquinho, que é uma coisa que muitas mulheres
- 4:42trazem. Esse lado da eu comecei nos
- 4:43diários e demorei a me colocar como escritora, né, a falar que
- 4:47eu era escritora, que eu era poeta.
- 4:49Você acha que teve algum ponto de virada assim?
- 4:51Alguma chave que te fez colocar? Não.
- 4:53Eu escrevo, sou uma escritora, ou foi realmente essa
- 4:56descoberta, aos pouquinhos, um talvez um entendimento?
- 4:59Eu acho que muito nesse lugar da invisibilidade de escritoras
- 5:03negras, né? E aí por participar de mesas,
- 5:07né? Eu até dei um exemplo hoje, né?
- 5:09Numa atividade que eu tava fazendo, que eu participava
- 5:13muito de mesas, que era 4 homens, e aí me chamavam
- 5:17elisandra. E aí?
- 5:21Raras às vezes eu dividi mesa com com mulheres que não eram
- 5:24negras e com outras mulheres. Então, ali, naquela roda de
- 5:28discussão, o meu assunto virava exceção, então você vai tendo
- 5:31que se posicionar, né? E aí você se tornar essa
- 5:34representação, né? Por não ter outras mulheres
- 5:37sendo convidadas, não é que elas não existiam, elas não eram
- 5:39convidadas, né? E aí você vai tendo que se
- 5:43forjar na luta, né? Então a grande virada é
- 5:45participar mesmo dos movimentos, falar, olha, tem alguma coisa
- 5:47errada, eu, né? E começar a ter que visibilizar.
- 5:51É a escrita de mulheres negras. E para visibilizar, a escrita de
- 5:55mulheres negras ser a partir de você mesma, né?
- 5:57Tanto que uma das coisas que eu peguei, né?
- 6:01Enquanto missão de vida, né? De que?
- 6:04É pra minha arte, tá visível. Eu não posso deixar nenhuma
- 6:07escritora negra que veio antes de mim pra trás, né, porque a
- 6:11gente tem uma memória muito curta, a gente esquece muito
- 6:13rápido, a gente esquece quando essa autora tá em vida, quando
- 6:16ela morre. Então se a gente não traz, né e
- 6:20celebra esses nomes, ela vai embora, né, junto com a
- 6:23história, né? Então é muito mais isso, né, de
- 6:26de ser, de virar um ativismo, né, para além de escrever.
- 6:30Né? A gente se torna essa militante
- 6:34não porque a gente quer, né? Por necessidade mesmo.
- 6:36Pelo que se coloca, né? Pelo que se coloca.
- 6:38E para você, Deise, como foi esse esse caminho de se
- 6:41encontrar nesse processo? É.
- 6:45Eu aprendi a ler e escrever muito pequenininha.
- 6:49Por causa da minha avó, eu sou adotada.
- 6:52E isso, enfim, diz muito da da da minha relação com a palavra e
- 6:56também de da minha história como uma mulher negra.
- 7:00EE, eu comecei muito pequena também a escrever histórias
- 7:04assim. Era histórias longas.
- 7:06Eu enumerava o caderno todo, as páginas e escrevia histórias do
- 7:11começo ao fim. Isso com uns 89 anos.
- 7:14E depois as professoras de português que eu tinha, elas
- 7:17começaram a chamar para eu ler as histórias na frente da sala,
- 7:21porque eu usava todos os amigos como personagem, que era uma
- 7:24forma de socializar na verdade assim.
- 7:28E mas eu eu dizia. Era uma coisa que eu dizia muito
- 7:31ao longo do crescimento na adolescência, que eu não queria
- 7:35que a escrita fosse uma profissão, que eu queria que
- 7:38fosse um hobby, porque eu achava que se virasse profissão eu IA
- 7:42perder o encantamento. Eu ficava nesse lugar.
- 7:45E depois eu entendi que era porque eu não tinha referência
- 7:48de mulheres e de mulheres negras como escritoras.
- 7:52É profissionais, né? Que pudessem viver de sua
- 7:55escrita. Mas aí fui pra pra outras áreas,
- 7:59né? Fui pro teatro, depois fui pra
- 8:01fotografia, que é AA minha profissão principal hoje,
- 8:05digamos. E mas sempre escrevendo,
- 8:09escrevia mais prosa, prosas curtas.
- 8:12Escrevi poemas com 15 anos, que são terríveis, nunca serão
- 8:16encontrados. Aí fui pros blogs.
- 8:21Que enfim, que era uma mistura de tive diários, né?
- 8:25Ao longo da vida também, além dos cadernos, mas aí ali no blog
- 8:29era meio que tudo assim, ele era um diário, aí também era um
- 8:33caderno virtual de referências, aí também era textos.
- 8:38E quando eu que eu nasci em São Paulo, mas cresci no interior,
- 8:42em São José dos Campos, e voltei pra São Paulo pra cursar
- 8:45sociologia, e aí eu fui. Conhecendo os saraus que em São
- 8:50José não tinha assim esse essa amplitude, né?
- 8:53De movimento cultural, aí eu falei, puta, eu preciso ter um
- 8:57poema pra pra conseguir apresentar aquilo, alguma coisa.
- 9:03E aí eu comecei testar poemas que são terríveis e ao longo do
- 9:09dos anos assim, digamos, de 2014, 2015 até 2017.
- 9:17Foram é momentos que eu fiquei muito no teste, né?
- 9:22E aí junto disso veio tanto a minha identidade como mulher
- 9:26negra, porque eu também tinha muito isso.
- 9:27Ah, você não é negra, negra, né? Você é morena?
- 9:30Então eu eu sou adotada por Paes, brancos.
- 9:32Então esse era um lugar que eu não sabia qual, que era o meu
- 9:35lugar, né? E aí em São Paulo eu fui
- 9:38encontrando isso. Junto com referências, né?
- 9:41Elizandra Jennifer nascimento eu falei, nossa, não tem essas
- 9:45mulheres que são escritoras e posso ser também, né?
- 9:50Mas acho que o processo de me dizer escritora, ainda assim
- 9:56veio, não sei, muitos anos depois, nem com o primeiro
- 9:59livro, eu. Eu consegui dizer isso ainda
- 10:01hoje. É mais confortável dizer
- 10:03fotógrafa e o poeta depois e. Aí escrevo também, né?
- 10:09Mas isso que vocês falam, acho que conversa muito, até porque
- 10:11eu criei elas na escrita da gente ter esse espaço das
- 10:13mulheres e ter mais, né? Possibilidade de ver outras
- 10:16mulheres escrevendo, que é o que vai dando essa coragem de sair
- 10:19da gaveta, de colocar os inscritos para frente.
- 10:21E tem uma coisa que vocês 2 falaram que me chamou atenção,
- 10:23que vocês 2 nasceram aqui em São Paulo, né?
- 10:26Saíram e voltaram para cá depois e acabaram se encontrando nesse
- 10:29retorno. Vocês acham que essa essa
- 10:32transição de de cidade, de lugar ali, de lugar, de vivência,
- 10:36mudou e afetou a escrita e a criação de vocês de alguma
- 10:39forma? Como foi esse sair e voltar?
- 10:42É essa experiência, né? É, eu trago no filha do fogo,
- 10:46né? De forma ficcionada, né?
- 10:48O livro filha de do filha do fogo, né?
- 10:50Que é 12 contos de amor e cura. A maioria dos contos é de
- 10:54memórias afetivas, porque eu morava.
- 10:57Na cidade de Nova Soure, mas meus avós é moravam na zona
- 11:02rural e aí de final de semana ou quando IA algum parente de São
- 11:06Paulo, a gente tava lá na fazenda, né?
- 11:09E aí tem umas coisas assim interessantes que nas minhas
- 11:13histórias. A minha irmã mais velha, ela
- 11:15nunca aparece. Olha, ela parece pouquíssimas
- 11:18vezes assim, porque a minha avó, ela era muito cri.
- 11:22Cri, né? E aí ela nunca queria 2 crianças
- 11:25ao mesmo tempo. E a gente, as netas mais velhas,
- 11:27então não tenho muitas memórias. Eu e Ela na fazenda, geralmente,
- 11:32ou estava uma estava na fazenda, eu estava.
- 11:34Na cidade, né? Poucas vezes a gente tava junto,
- 11:37rodízio de rodízio de netos assim.
- 11:41E aí no filho do fogo, né? Eu trago essas memórias.
- 11:44A memória com Balanço é o próprio conto que dá título ao
- 11:51livro. Filha do fogo.
- 11:52É uma história que se passa, é uma criança observando a voz,
- 11:56acendeu o fogão a lenha e tal, e ele é uma história contada em
- 11:59primeira pessoa. Porque a personagem aí não e
- 12:02tal. E aí as pessoas, quando eu leio,
- 12:03né? Ou quando as pessoas leiam e
- 12:04falam assim, nossa, que bonito, né?
- 12:06Você acendeu o fogão a lenha com 8 anos, eu falei, gente, eu
- 12:08nunca acendi o fogão a lenha existia, o fogão a lenha existia
- 12:12a vó, mas a criança eu elizandra, eu nunca acendi o
- 12:16fogão a lenha, né? Então eu falo, é, é, minha vó,
- 12:19jamais deixaria eu acender o fogão a lenha.
- 12:21Então na literatura a gente faz essas coisas, né?
- 12:24De existiu, né? Aqueles elementos.
- 12:28Mas o que você conta é o que você quiser, né?
- 12:30É isso. E aí você resolve algumas
- 12:33coisas, né? Eu tava até conversando com a
- 12:35Deise um pouquinho antes sobre isso, que ela olhou a capa do
- 12:37meu livro e perguntou se Era Eu. Eu falei, sim, eu não queria que
- 12:39fosse eu. E é justamente por isso que as
- 12:41pessoas olham o livro e falam, Ah, tá, é a sua história, nossa,
- 12:44né, quanta coisa sofrida, quanta coisa triste, eu falo, não,
- 12:47gente, calma, algumas coisas eu puxei, depois eu inventei, eu
- 12:50menti, que é o que a gente pode fazer, né?
- 12:52A gente brinca quando é escritora com esse lado.
- 12:54Eu falo que eu sou dupla fofoqueira, né?
- 12:56Vê que. Eu sou jornalista de formação e
- 12:59sou escritora, né? Então é fazendo fofoca e
- 13:02interessadíssima na vida dos outros.
- 13:05E é aqui é onde você pode tirar o lado de jornalista que tem só
- 13:07da verdade. Na literatura, você fala, não,
- 13:09vocês. Vocês vão ter que aguentar essa
- 13:11mistura aí de ficção e invenção, né?
- 13:15E aí essa vivência, né? De ter passado pelo interior da
- 13:18Bahia, né? Meus pais são baianos, meus avós
- 13:20são baianos, todos na mesma cidade.
- 13:22E aí esse lugar, né? Quando eu.
- 13:25Eu falo, né, do pertencimento, de voltar a cidade de São Paulo,
- 13:28né, e tudo mais. É, mas essa memória afetiva, né,
- 13:33por exemplo, que afeta também a coisa da da infância, né?
- 13:37Aí eu IA conversar com meus amigos de memórias de infância,
- 13:41e aí as brincadeiras eram outras, né?
- 13:43Então eu era sempre esse lugar do esse não lugar também, né?
- 13:48Sei lá, tem uma brincadeira que as crianças aqui do negócio de
- 13:50adoleta, não sei nem fazer que lado vai.
- 13:54A gente não brincava disso lá na Bahia, né?
- 13:56Esses deslocamentos geralmente fazem diferenças, né?
- 13:59Eu senti isso muito também quando eu mudei para São Paulo.
- 14:01Aí você entende os lugares que você é, aí que você não é.
- 14:04E para você, Deise, se afetou, se escrita de alguma forma.
- 14:07Eu acho que libertou a minha escrita porque eu só nasci, né?
- 14:11E aqui em São Paulo, então, desde com 6 meses eu já estava
- 14:15em São José, mas eu vinha muito para cá porque a minha avó, meus
- 14:19avós. Porque é uma história doida, né?
- 14:22Porque quem me adotou foram os meus avós.
- 14:24E aí eu passei para minha mãe essas histórias do fim dos anos
- 14:2980 que eu tinha medo da minha mãe ser meio Nazaré.
- 14:34Exato. E quando eu eu tinha uma relação
- 14:39com a escrita e com São Paulo, por causa da minha avó e dela
- 14:42ter me ensinado a escrever muito, muito novinha, com 45
- 14:46anos. Mas porque ela?
- 14:48Ela era viciada em cadernos de receita, como a maioria das
- 14:51avós, né? E eu ficava copiando receitas
- 14:55com ela. Nosso grande programa de férias
- 14:57era ficar assistindo Ana Maria Braga e ficar copiando receita.
- 15:01E ou eu IA sozinha, me achava super adolescente, com 878 anos,
- 15:06IA na vendinha da dona Maria comprar outro caderno para mim.
- 15:11Então é essa relação com São Paulo e a escrita vinha disso em
- 15:14São José. Putz, é difícil porque eu já
- 15:18escrevi, eu escrevia muito em todo lugar, mas o que eu sinto
- 15:21de diferença vindo para São Paulo é que essa escrita
- 15:25finalmente quando eu resolvi, quando eu comecei no saraus e
- 15:29puta queria algo para apresentar aqui é essa escrita virou para
- 15:34fora, né? Ela saiu desse campo só do Ah, é
- 15:37um prazer meu que eu guardo para o meu íntimo e virou um lugar
- 15:42mais público assim mesmo que. O lugar de falar coisa em
- 15:46público seja ainda mais recente, porque eu sempre fui muito
- 15:49tímida. Então, mesmo falando um
- 15:52pouquinho no saraus, eu não me sentia confortável.
- 15:54Eu preferia escrever. E hoje estou colocando mais o
- 15:58corpo para jogo. É, eu acho que São Paulo deu
- 16:02para mim esse lugar da metrópole da palavra.
- 16:05Assim eu consegui. Colocar para fora, né?
- 16:07Isso é que tem uma Liberdade também de você mudar para
- 16:10cidade, às vezes sem conhecer ninguém.
- 16:12Seus amigos ficaram, a família ficou, é diferente.
- 16:14Aquelas histórias assim, né? Mudar de cidade, de país, muda
- 16:16de personalidade. Muda de personalidade.
- 16:18Mas eu mudo de personalidade quando vou para, sei lá no
- 16:21Salvador da vida, né? Por exemplo, aqui na cidade de
- 16:23São Paulo, eu quase não uso vestido.
- 16:27Do roupa curta, não sei o que aí quando eu vou pra esses lugares,
- 16:30né? Principalmente lugares de praia,
- 16:32né? E tudo mais.
- 16:33Eu falo, gente, parece que é dupla personalidade.
- 16:35Tem as sandalinhas do armário, chinelinho é pior que é desse
- 16:38jeito mesmo. Aqui em São Paulo, é a
- 16:40personalidade que usa tênis e bota.
- 16:41Eu tenho um pouco isso aí também.
- 16:44E, gente, e a escrita de vocês hoje em dia é o que que afeta
- 16:47vocês na hora de pensar, né? Na hora de escrever, na hora de
- 16:50começar um tema novo, muita gente fica nessa pergunta de Ah,
- 16:53como começa, né, de onde vem a inspiração, de onde vem um tema?
- 16:56Então, o que movimenta vocês para escreverem hoje, que temas
- 16:59vocês buscam? E também acho que é interessante
- 17:01saber como que esses outros lugares que vocês transitam, por
- 17:04exemplo, a fotografia é o espaço da sala de aula, os saraus, como
- 17:09esses lugares também hoje em dia afetam a escrita é de vocês no
- 17:12livro, como isso tudo se? Os.
- 17:16Meus livros, todos eles, eu falo que são antologias de mim mesma,
- 17:21né, porque eu vou principalmente poesia, né, que é a minha maior,
- 17:26a minha maior obra, né. O que eu tenho mais descrito é
- 17:31na poesia, né? É, eu vou fazendo antologias,
- 17:35né? O punga, por exemplo, foi um
- 17:37livro que foi pensado, foi uma ideia do Alan da rosa, né?
- 17:41Na época, em 2007, eu nem achava.
- 17:43Tanto eu quanto a 15, né? O livro em dupla, né?
- 17:45A gente não achava que era possível publicar um livro, né?
- 17:49E aí tô falando em 2007, foi ontem, né?
- 17:52É? E aí foi um livro que reuniu
- 17:56textos que eu tinha desde da adolescência, né?
- 17:58Eu começo a primeira poesia que eu publico, que eu mostro, eu
- 18:02publiquei no meu fanzine, que é o fanzine que hoje leva o nome
- 18:05da minha editora, né, que é o fanzine migiba, e eu distribuí
- 18:09esse fanzine nos eventos de hip hop, né?
- 18:12É o segundo livro, que é o águas da cabaça.
- 18:14Foi quando eu escrevi o meu primeiro projeto cultural, que
- 18:17foi é que foi aprovado, né, que foi financiado, né, pelo
- 18:23programa vai. E aí, além de ser a escritora do
- 18:26livro, eu me torno editora, né? Porque eu editorei esse livro,
- 18:30né, o águas da cabaça, e eu venho com referências, é os
- 18:35capítulos, são citações de escritoras negras que me fazia
- 18:39sentido ali, né? Que ainda faz até hoje, que são
- 18:42as mesmas referências. E aí eu separei por capítulo,
- 18:46colocava essa citação, né? Por exemplo, tem 11 citação no
- 18:50águas da cabaça. É que do livro cartas para minha
- 18:58filha, da Jota nosipo marairi, que ela vai falar que nenhum
- 19:03homem vale sua dignidade. Ali eu coloquei poema como em
- 19:06legítima defesa, que é meu poema que eu falo sobre feminicídio.
- 19:10Né, que é o poema que é me mobilizou a publicar o águas da
- 19:14cabaça, porque é um poema que eu falo de feminicídio.
- 19:17Eu recitava nos saraus e ele era super é mal recebido, mal
- 19:21compreendido. As mulheres gostavam, mas os
- 19:23homens, tipo, parava. No segundo verso, que é só estou
- 19:28avisando, vai mudar o placar. Já estou vendo nos varais os
- 19:31testículos dos homens que não sabem se comportar.
- 19:33Né? Então o poema vai.
- 19:35Aí eles paravam de ouvir, né? Se.
- 19:36Sentiam no lugar do AI, me identifiquei.
- 19:39É, e aí vinha, Ah, essa poesia aí é poesia de mulher mal amada,
- 19:43com esse poema aí, você nunca mais vai arrumar namorado, né?
- 19:46Como se a gente fizesse poesia pra arrumar namorado, a gente
- 19:48faz depois comigo, a gente faz também, né?
- 19:52É? E aí eu mandei para algumas
- 19:54antologias, não publicaram. Eu falei, gente, eu vou ter que
- 19:57fazer um livro para publicar esse poema.
- 19:58Assim, eu fiz um livro para publicar esse poema que a gente
- 20:00é dessas, né? E aí, por exemplo, o próximo,
- 20:03que é quem pode acalmar esse redemoinho de ser mulher preta?
- 20:06Ele também é separado por capítulos.
- 20:08Aí eu vou, como é um livro, é um livro bilingue, né, português e
- 20:11inglês, mas as separações, aí eu vou para as palavras de urubás,
- 20:15né? É poesias de ohim, ohim, urubás,
- 20:18quer dizer mel, então são as poesias mais sensuais e tal.
- 20:21Aí tem as poesias em inta, que é poesia de revolução, é, tem as
- 20:26poesias de né, que é mais uns poemas.
- 20:30É mais voltado para o autoconhecimento, né?
- 20:32E tudo mais. Então eu vou reunindo esses
- 20:34poemas que tem a ver com esses capítulos que eu invento no
- 20:38punga. Ele tem uns capítulos fictícios
- 20:40que na minha cabeça. Diferente, assim, de criação do
- 20:43livro legal. Porque não é o livro, né?
- 20:46Você vai fazendo os poemas. E aí eles aí você vai e reúne e
- 20:50tal. No No contos, por exemplo, o meu
- 20:53primeiro conto é uma. Eu escrevi um conto para
- 20:57participar de uma antologia que chama o segredo do céu da boca,
- 21:00que é o primeiro conto. É que chama a primeira vez que
- 21:04fui ao céu, que é um conto que eu vou falar do Balanço e tudo
- 21:08mais, que vem a ser depois. Esse conto se transformou no
- 21:11curta metragem que foi gravado na fazenda dos meus avós.
- 21:14É um curta metragem dirigido pelo Renato Cândido.
- 21:17E aí no curta metragem ele mistura a minha infância, mas a
- 21:20infância da mãe dele. Então é uma infância que se
- 21:22passa no período da ditadura, só que no período da ditadura não
- 21:25existia. A minha infância era dos anos
- 21:2780, né, que aí ele coloca. A personagem divina de pau de
- 21:30Arara, né? Para a cidade de São Paulo e
- 21:31tal. Mas a essência ali do da relação
- 21:34da menina com Balanço, ele continua.
- 21:36E aí esse foi o primeiro conto que eu escrevi, que foi em 2008.
- 21:40E aí ele é um dos contos que faz parte do livro.
- 21:42Então, reunir contos de diversas etapas.
- 21:45E aí eu comecei a produzir contos para participar do
- 21:47cadernos negros, que o cadernos negros um ano é poesia, outro
- 21:51ano é contos. E aí eu falo que eu tinha, virei
- 21:53contista de cadernos negros que publicavam, conta a cada 2 anos.
- 21:57Então, muitos desses contos é está presente aí no filho do
- 22:01fogo, mas aí tem outros contos inéditos, né?
- 22:03Então esse processo de criação geralmente vai juntando os
- 22:07textos e depois a gente, né? Faz uma seleção, aí faz uma
- 22:13costura e para colocar no mundo assim, agora eu estou desenhando
- 22:18um outro livro. Agora eu estou brisando na coisa
- 22:20dos pássaros. Né?
- 22:22Então meu próximo livro já tem nome, já tem, já tem os, já
- 22:25estou separando os capítulos. Né, já pode contar o nome ainda
- 22:28segredo. Chover?
- 22:29Não, já pode. Quer dizer, é, pode, pode, é
- 22:35bom, vamos colocar no que aí você traz, você materializa, né?
- 22:38Na no mundo. Né, se alguém já tiver essa
- 22:41ideia, já vai descartar. É, já vai, já vou deixar
- 22:43registrado. Que ele, então?
- 22:46Eu estou precisando na coisa dos pássaros, então?
- 22:50É chama odidé, o pássaro selvagem.
- 22:53Odidé é um pássaro, é um papagaio cinza com as é e o rabo
- 22:59dele é vermelho, que tem 11 pena chamada é ecodida, que é a pena
- 23:04que a gente usa na iniciação do candomblé, aquela pena vermelha
- 23:08tal. E aí, da onde veio isso?
- 23:11É há uns 2 anos atrás. Eu fui procurada pela Esperança
- 23:15spaldi pra criar uma música, criar um poema que ela IA
- 23:19transformar em música, tal EE acabou, não rolou o poema, ela
- 23:24chegou a musicar, mas aí não chegou a gravar, não, chegou a
- 23:27ir pra frente. E aí o poema é belíssimo.
- 23:30E eu falei, Ah, vou continuar, então a ideia.
- 23:33Aí comecei a brisar na coisa do passo.
- 23:35Vou fazer um livro e vou. Fazer um livro pra esse poema
- 23:38porque ele IA ser uma música, não foi tudo que poderia ter
- 23:41sido, que não foi. E a gente ressignifica, né?
- 23:44A arte é isso. Ela é movimento, né?
- 23:47E aí, então, nessa coisa dos pássaros já está tudo
- 23:51esquematizado. Mas 1 hora é.
- 23:52Muito bom ver que tem processos tão diferentes, né?
- 23:54Que tem gente que às vezes pensa que tem que ter um processo
- 23:57muito linear, muito parecido, para todo mundo.
- 23:59E não é. Tem diversas possibilidades.
- 24:01Se puder contar um pouquinho, então, para você, como são esses
- 24:04processos, como eles, conecta também com você falou que, né?
- 24:07Tem uma conexão muito maior com a imagem hoje em dia, então como
- 24:10é isso para você? E se puder falar um pouquinho
- 24:12também do seu livro mais recente, já que ele contou um
- 24:14pouquinho para ela desde que você está lançando, conta aí
- 24:16para os ouvintes ficarem curiosos e comprarem seu livro.
- 24:20Acho que tem algo sobre porque eu tenho 2 livros, né?
- 24:23Agora, o tautologias foi um convite da Bárbara Ismênia,
- 24:29poeta aqui de São Paulo, que fazia parte da pade junto com a
- 24:32Tatiana nascimento, e elas tinham acabado de lançar a
- 24:37editora e a coleção odoya. E aí a Bárbara falou, vamos
- 24:42lançar o seu finalmente e tal, não sei o quê.
- 24:44Só que eu ainda tava num processo que Era Eu tinha muita
- 24:48prosa curta. E que é algo que eu ainda amo
- 24:52fazer, mas que ainda que agora eu tenho dificuldade de voltar
- 24:55Pra Ela. E tava nesse processo de testar
- 24:58a poesia. Então não era minha linguagem
- 25:00poética e a coleção era de poesia.
- 25:03Então ela falou, vamos pegar alguns poemas que você gosta e
- 25:06colocar no finalzinho umas prosas, né?
- 25:09E aí ele é um livro que eu tenho muita crise.
- 25:12Assim foi. Acho que foi super importante
- 25:14pra conseguir dizer de algum modo sou poeta, sou escritora e
- 25:19pra enfim pra me colocar no mundo.
- 25:23Mas é um livro que eu não tenho. Por exemplo, eu tenho amigos que
- 25:27tem ele, mas eu mesma não tenho porque ele é muito irregular.
- 25:31Ele não é o que o que eu me reconheço enquanto escritora.
- 25:35E aí desde então eu lancei ele. Novembro de 2016 eu fiquei 9
- 25:40anos. Me encontrando muitas escritas
- 25:44de blog guardado que o blog virou um grande arquivo, né?
- 25:48Eu fechei ele e virou minha é virou minha plataforma porque eu
- 25:53não gosto AI. Fotógrafa, né?
- 25:55Eu não gosto da estética do Word, eu não gosto da estética
- 25:58do blog. Quando eu estou escrevendo lá,
- 26:01eu sinto um pouco que ele tem uma carinha de caderno em algum
- 26:04lugar, assim ele me associa a algo mais analógico do que o
- 26:08Word, então eu gosto de escrever lá, aí depois eu passo.
- 26:11Hoje eu até uso o Google docs, porque é mais fácil de acessar,
- 26:14né, no celular, essas coisas, mas tenho nos 2, eu coloco lá,
- 26:17depois arquivo No No blog. E ao longo desses 9 anos, eu
- 26:24encontrei a minha linguagem, mas já aí já não sabia o que fazer.
- 26:27Falei meu, eu tenho 9 anos de poesia, não sei como que eu vou
- 26:31juntar isso daqui. Eu tinha muito medo de fazer um
- 26:37segundo livro que fosse um apanhadão.
- 26:39Eu não queria que ele fosse um apanhadão ao mesmo tempo.
- 26:44Virei mãe nesse meio tempo, né? 2002, 1018, eu engravidei, 2019
- 26:49nasceu meu filho. Eu falei, eu não vou ter tempo
- 26:53de pensar, porque eu eu, o meu grande desejo era ter um tema e
- 26:58a partir desse tema, escrever os poemas, porque na minha cabeça
- 27:03só assim seria um livro com consolidado, entendeu que eu IA
- 27:08olhar e falar assim, não, isso daqui faz parte de um grande
- 27:11projeto. Ao mesmo tempo, eu pensava,
- 27:13minha filha, você é mãe solo de uma de um bebê, você não vai
- 27:17conseguir fazer isso. Ao mesmo tempo, veio a pandemia,
- 27:20enfim, os processos foram se atro.
- 27:21Apelando até que ano passado eu falei, não vamos, vamos dar um
- 27:26jeito. E participei da do laboratório
- 27:30de edição da Gabriela perigo, que é uma poeta do Rio de
- 27:33Janeiro. E ela tem.
- 27:34Esse, na verdade é um laboratório.
- 27:36É um laboratório que ele é coletivo.
- 27:39Nós éramos em 5. E aí cada um vem com projeto e
- 27:43todo mundo lê o projeto de todo mundo.
- 27:46E aí fica cada semana fica dedicado a uma pessoa, o projeto
- 27:50dessa pessoa. Então a gente passa uma noite
- 27:52toda, sei lá, 45 horas debatendo esse projeto, editando juntos
- 27:57esse livro. E eu fui a terceira quando
- 28:00chegou na minha vez, porque aí você vai ouvindo, né?
- 28:02O que você fala? O que as outras pessoas falam,
- 28:04você também. Você já vai editando o seu, né?
- 28:06Sim. Enriquece.
- 28:07Exato, foi uma loucura assim. Aí quando chegou no meu, ela
- 28:10falou, nossa, eu nem sei o que dizer, que já tá pronto um
- 28:13tanto, né? A gente mexeu poucas coisas
- 28:16depois disso. É que eu achei que foi super
- 28:19importante de você falar do vai, porque tem muito isso também pra
- 28:23gente, né? Porque.
- 28:25Além de de sermos pessoas negras, somos mulheres negras.
- 28:29Então a gente sabe que o Mercadão da literatura, enfim,
- 28:33escolhe 34 mulheres negras que vão ficar um ano e depois elas
- 28:39se reciclam, né? Como se a gente não pudesse.
- 28:42Exato, eu tenho, eu fico. Como eu fico fazendo coisas
- 28:46burocráticas às vezes ou editando muitas fotos?
- 28:49Eu sou viciado em ficar ouvindo podcast é mesa de literatura, eu
- 28:54fico gente, em todas as mesas desse ano rodaram pouquíssimas
- 28:57pessoas assim, né? De convidados diferentes, né?
- 29:01São os mesmos. Aí você vê a mesma autora
- 29:03falando em 5 feiras, né, sendo que AA quantidade de pessoas que
- 29:08tem para falar, né? Bom, as políticas públicas, elas
- 29:12possibilitam que a gente. Consiga colocar o livro no
- 29:16mundo, né? E aí a gente consiga colocar da
- 29:18nossa forma. Que a gente consiga escolher
- 29:21entre editar e escolher alguém pra editar, como foi meu caso
- 29:24com o Daniel menchoni, meu grande amigo e editor do selo do
- 29:28burro. EE aí, como eu já tinha esse
- 29:32livro pronto, eu eu fui escrever o ProAC, levei.
- 29:38E aí falei, bom, agora vou ver se vai ser isso mesmo, se vai
- 29:42entrar mais alguma coisinha, entrou um poema ou outro e
- 29:46fechamos assim. E aí pensando ainda em
- 29:49processos, né? EE futuros, foi muito importante
- 29:53para mim lançar esse livro que é o escolher, falar de amor.
- 29:56Não sei se será nenhuma bomba, porque além dele me curar desse
- 30:01processo de 9 anos e do primeiro livro, que foi muito importante,
- 30:05mas com o qual eu tenho. Uma relação litigiosa é, ele me
- 30:11possibilitou pensar No No que eu quero mesmo pesquisar, aí agora,
- 30:16eu a partir dele, eu consegui pensar no livro que eu quero
- 30:20mesmo fazer, no sentido de projeto fechado, o que eu sempre
- 30:24desejei, mas que eu acho que eu não tava conseguindo porque eu
- 30:27tinha que dar vazão pra esses 9 anos, sabe?
- 30:31Então é muito doido, né? Como às vezes dá colocar no
- 30:34mundo uma obra. Faz muita diferença, né?
- 30:37Faz você ter paz pra próxima, né?
- 30:39E eu me identifiquei muito com o ponto da sua fala.
- 30:41Quando você fala que tem esse livro que tá ali escondidinho,
- 30:44que não é, porque a gente renega esse outro livro mais antigo, eu
- 30:46não gosto dele. Eu, eu tenho meus 2 primeiros
- 30:49livros, são esse espaço também de aprendizado.
- 30:52É quase como se tivesse encontrando ali nossa forma de
- 30:55escrever, nossa forma de falar. E chega o momento que você fala,
- 30:58Ah, não é isso aqui? Acho que aqui eu me entendi,
- 31:00aqui eu me encontrei. E faz uma diferença, né?
- 31:02Quando você encontra meio que essa voz, esse espaço, esse
- 31:05ritmo que a gente quer. Seguir, a coisa mais doida é que
- 31:09ela enquanto autora, né? Tem esses dilemas.
- 31:12E aí, quem teve acesso ao livro, né?
- 31:15Como leitor, acho incrível, né? Vem dar feedback.
- 31:18Eu Acredito, né, que as pessoas vem dar feedback e você fica
- 31:21nessa relação estranha. Não, gente, não.
- 31:25E as pessoas mais. O livro é incrível.
- 31:27Aí só quer perguntar nesse livro?
- 31:30É verdade, é as pessoas curiosas procurando outro livro, não,
- 31:33gente, vão lá procurar o livro atual, que é muito bom também,
- 31:36que vocês vão adorar. E gente, enquanto poetas e
- 31:40mulheres que escrevem hoje em dia, vocês entendem a poesia
- 31:43escrita num lugar talvez mais de é de sonho, de relação pessoal,
- 31:47um lugar de denúncia, um lugar de presença.
- 31:50E como vocês acham que a literatura e a escrita de vocês
- 31:53pode contribuir também para que as vozes de outras mulheres
- 31:56negras você tava falando? É desse espaço que as vezes
- 31:59acaba sendo tão reduz. Produzido.
- 32:00Como a literatura pode contribuir para que essas vozes
- 32:02estejam também fora dos ciclos literários, né?
- 32:05Que ela se enriqueça dentro do espaço literário, mas se
- 32:07enriquece. Sarau, se enriquece em outros
- 32:09ambientes criativos. Vocês se veem um pouco nesse
- 32:12lugar ou não? Vocês escrevem para vocês
- 32:14enquanto esse lugar de poesia. É que a escrita, né?
- 32:18Ele ela vem nessa, nesse lugar de tipo eu não consigo.
- 32:26Me ver sem a escrita, né? Eu não consigo me ver sem os
- 32:29livros, né? Então é como leitora, como
- 32:33leitora, mas é e aí, sei lá quando tá nesses processos, né,
- 32:37que nem eu tô com esse livro que tá em tá, tá bem encaminhado já,
- 32:41inclusive é, e aí você fica pensando nele, né?
- 32:45E tudo mais, mas é, principalmente eu tenho muitas
- 32:50poesias, que é poesias que que vieram.
- 32:54É, eu sou aquela que espera inspiração divina, eu não, eu
- 32:59vou anotando ideias, né, alguma coisa bem, vou anotando ali no
- 33:04né, criei um grupo comigo mesmo no WhatsApp, né?
- 33:07Eu queria que a minha irmã expulsei ela do grupo EE, aí eu
- 33:11vou colocando algumas ideias que eu vou tendo, né?
- 33:13E aí quando eu paro para escrever, né, porque, por
- 33:17exemplo, se eu falar assim não, hoje eu vou, eu vou escrever 1
- 33:20hora, não sai nada. Aquela coisa que você anão vou
- 33:23dedicar 1 hora do meu dia não sai, não sai nem escrita, sabe
- 33:27que nem o pessoal fala aí fluxo de consciência da obrigação, né?
- 33:31Eu me sinto CLT da poesia, aí me aí já entra num né, num lugar
- 33:37desconfortável assim, né, burocrático, tá?
- 33:41E aí eu eu sou aquela que espera a inspiração divina, né?
- 33:44Então tem temas que me. Que me impacta, o que eu só
- 33:48consigo resolver na escrita, né? Principalmente na escrita de
- 33:51poesia, né? Então, primeiramente, eu tô
- 33:54tentando me salvar, né? Tentando organizar os meus
- 33:57pensamentos, né, as minhas inquietações.
- 34:00E aí quando você vê e mostra para outras pessoas, fala,
- 34:04nossa, isso aqui faz muito sentido.
- 34:05Eu já pensei, mas eu não, eu já pensei sobre isso, mas eu não
- 34:08tinha conseguido colocar em palavras, né?
- 34:10E aí? Você se vê como tradutora de
- 34:13sentimento de outras pessoas, mas é o seu sentimento que você
- 34:16tá tentando traduzir ali e trazer, né?
- 34:19Isso é como dizem, quanto mais pessoal, mais universal, né?
- 34:23O pessoal da gente dialoga muito com o coletivo.
- 34:26Sim, então a poesia para mim é muito nesse lugar, tanto que é
- 34:33para mim oferecer o livro, né? E ser convidada para publicar
- 34:36contos numa editora. É de maior circulação.
- 34:40Foi mais confortável do que as poesias.
- 34:42Até tô tentando, né, de de publicar essas poesias, mas, por
- 34:47exemplo, esse livro inédito, eu quero editar esse livro, eu
- 34:51quero deixar da forma que eu planejei, né?
- 34:54E aí quando você vai pra editoras que são mais
- 34:57convencionais, é muito mais padronizada essa arte do que o
- 35:02né nas nossas editoras, né? Periféricas, né, e tudo mais que
- 35:05tem. Os nossos limites, né?
- 35:07Principalmente pensando em distribuição, né?
- 35:10Outras etapas de como circular essa poesia assim, mas às.
- 35:14Vezes existe um espaço de Liberdade criativo maior, né?
- 35:17Sim, sim. E aí, né?
- 35:19Depois que eu também me formei em designer, é.
- 35:22E aí eu me formei em designer, mas não sou designer, não.
- 35:26Me contratei pra ser designer. Eu só sei resolver as coisas de
- 35:29designer nos meus livros pessoais, né?
- 35:33É resolver assim, né? Pedir para alguém mais
- 35:35competente fazer pra mim. Mas pelo menos já tem.
- 35:38No norte, já tem o. Norte, né?
- 35:40Então é esse bololô tudo aí, esse bololô tudo aí.
- 35:47E para você, Dayse, que espaço você acha que a poesia escrita
- 35:50ocupam para você hoje? Você se vê nesse lugar mais
- 35:53interior também de resolver suas questões na escrita?
- 35:55A gente tem muito isso. Na escrita, é um lugar onde a
- 35:57gente organiza os pensamentos, se entende melhor.
- 36:00Ou você tem esse diálogo até mais externo mesmo, com pensar
- 36:03esse termo externo, conversar com o público, conversar com o
- 36:05mundo ao redor. Como é para você?
- 36:08Achei ótima essa pergunta, porque esse livro é depois de.
- 36:14Pois não no processo dele ser lançado.
- 36:16Como eu sou da das artes visuais e do audiovisual também, eu não
- 36:21queria que ele acabasse no próprio livro.
- 36:23Para mim é insuficiente assim. Então, junto com o livro, ele
- 36:27tem um curta, um é um. Eu chamei ele de álbum, um álbum
- 36:33visual que normalmente a gente tem na música, né, que é um
- 36:36resumo. Na música é um resumo do CD que
- 36:39vai ser lança CD do álbum que vai ser lançado, e aí escolhe,
- 36:45sei lá, umas 3 músicas e faz um compiladão e um clipe estendido,
- 36:50né? Que vira um curta metragem.
- 36:52Aí eu falei, não, eu quero um álbum visual desse livro.
- 36:56Por quê? Porque esse livro tem muito a
- 36:58ver também com meu encontro com o free jazz.
- 37:02Que para além do jazz, porque o jazz foi muito cooptado, né?
- 37:05Nos Estados Unidos, principalmente, foi
- 37:07embranquecido. É.
- 37:10E o free jazz tem algo de disruptivo dentro disso, né?
- 37:14Dele trazer o ruído. Eu tenho uma adolescência no
- 37:17punk e eu tenho um texto inclusive sobre mulheres negras
- 37:21no punk. Então é algo que me permeia
- 37:23muito, ainda que hoje não seja mais o meu cotidiano, mas é.
- 37:29O encontro com o free jazz, principalmente pela rádio
- 37:32diáspora, que é um duo de free jazz aqui de São Paulo, de 2
- 37:36homens negros, Rômulo, Alex, Wagner ramos, grandes amigos
- 37:40meus que eu comecei fotografando eles e aí eu eu comecei a falar
- 37:45poesia junto com eles e com o punho de Marin, que é uma banda
- 37:49preta punk aqui de São Paulo também.
- 37:51É, a gente fez, por exemplo, 11 evento no na ocupação 9 de
- 37:56julho, que eu mediei uma conversa dos das 2 bandas e
- 37:59depois eles foram tocar e eu falei uma poesia durante a
- 38:03tocada de um e durante a tocada de outro.
- 38:06Assim. E para mim foi ótimo, porque eu
- 38:08sou muito, muito tímida. E eu percebi que eu tinha
- 38:11mudando quando eu mudei para São Paulo e comecei a frequentar os
- 38:14saraus. E, por exemplo, lancei meu
- 38:17primeiro livro no Slam da Guilhermina em alguns Slams, mas
- 38:20nunca participei de Slam porque a gente não tem a menor condição
- 38:23de eu conseguir falar um poema de cabeça durante 3 minutos que
- 38:26eu nem sei o que que é esse tempo sou muito pisciana para.
- 38:29Isso é difícil. Né?
- 38:31É claro, você treina e você sabe que seu poema vai ter aquela
- 38:34métrica, mas assim, eu não tinha a menor possibilidade para mim.
- 38:37E também pensar que tinha que ter um tipo de performance que
- 38:41eu não conseguia me ver fazendo, mesmo vindo do teatro.
- 38:44Enfim, serviu para nada nesse sentido, serviu para outras
- 38:48coisas. Aí o free jazz e o punk, eles me
- 38:52trazem algo que é o erro, é permitido, o que seria um erro,
- 38:56né? Então, se eu falhar, se eu
- 38:58esquecer minha poesia no meio. Eu consigo emendar ela sem isso
- 39:02ser uma grande questão, entendeu?
- 39:03Sem eu eu pensar que não, eu tenho que performar de um jeito
- 39:07muito específico para minha aproximação com a música.
- 39:11E falar o poema com a música me deu essa, essa Liberdade para
- 39:15poder falar, de me sentir acolhido e poder falar também
- 39:18por estar com os meus amigos, né?
- 39:20E aí eu convidei eles para fazer a trilha sonora dos meus poemas.
- 39:24Eles fizeram a trilha para esse álbum visual.
- 39:27E agora no próximo mês, a gente vai lançar um disco com todos,
- 39:30na verdade, vai lançar um audiobook com todos os poemas e
- 39:33a trilha. E aí vai ter uma versão
- 39:35reduzida, que vai ser o disco que tem algumas participações
- 39:38também falando a minha poesia e o álbum visual.
- 39:43Aí eu convidei o Sérgio Silva, que é meu companheiro fotógrafo
- 39:46incrível, videomaker também para ele dirigir, porque embora eu
- 39:50seja da multilinguagem, para mim não faz, não faz.
- 39:53Não fazia sentido eu fazer tudo, sabe?
- 39:55É, eu sou muito do processo coletivo, tem a ver com ter
- 39:59vindo de coletivos. É quando mudei para São Paulo,
- 40:03né? Eu fiz parte 34 anos do Dolores
- 40:05boca aberta, que é um coletivo de artes da zona leste, então.
- 40:10E é legal esse espaço do coletivo, né, que às vezes,
- 40:12enquanto escritor, é algo muito solitário, né?
- 40:14Muito solitário e acho que tem algo muito forte de como eu sou
- 40:20uma mulher negra, adotada por pais brancos.
- 40:22Essa é minha comunidade negra, entendeu?
- 40:24E aí pra mim me dá um senso de família no bom sentido, sem
- 40:29propriedade. A família que se escolhe.
- 40:31Exato, a família que se escolhe que é.
- 40:35Que me assenta assim e que eu consigo existir com a minha
- 40:38palavra em outro lugar, para além da materialidade.
- 40:42É muito? Importante.
- 40:43É muito legal você ter tido essa relação de mais Liberdade com a
- 40:45música, né? Que não veio com o teatro.
- 40:47Tem outras autoras que passam por aqui que tem essa relação
- 40:50com o teatro, que fala, nossa, me ajudou muito na cena e todo
- 40:52seu veio da música muito bacana. E pensando em vocês hoje em dia,
- 40:56enquanto escritoras, que já tem aí uma trajetória, já tem livros
- 40:59publicados, a gente pode pensar então que já foi dando certo,
- 41:03que conselhos que vocês dariam para vocês mesmas.
- 41:05Mais jovens. Quando a gente está pensando em
- 41:07autores jovens, então estão começando.
- 41:09O que que vocês acham ali? Que vocês erraram e acertaram?
- 41:12Que escolhas vocês tomaram que deu certo, para vocês seguirem
- 41:15nesse rumo e estarem aqui hoje publicando livros, participando
- 41:18de eventos? O que que vocês conversariam com
- 41:21vocês de antes e com outras meninas?
- 41:23Eu acho que essa aceitação, né, de ser poeta, de ser escritora,
- 41:28né? Porque esse que eu acho que nem
- 41:30é uma coisa que nós, pessoas negras, né, essa coisa a gente
- 41:33usa, tem usado muito, né, essa coisa da síndrome da impostora,
- 41:37mas nem é isso, né? Para a gente é outra coisa, não
- 41:41é a síndrome da da impostora, é o racismo mesmo, massacrando,
- 41:45né? E nos né, em conjunto com o
- 41:47machismo, né, e com a questão social, né?
- 41:52Então, essa tríade do mal faz com que a gente.
- 41:56É duvide muito, né? E aí a gente vê pessoas é
- 42:02medíocres, né, fazendo né e acontecendo com tanta certeza e
- 42:08a gente com tanta dúvida e com tanto conteúdo, com tanta coisa
- 42:11pra pra pra ensinar e pra aprender também, né?
- 42:14Porque Eu Acredito muito na troca, né, né?
- 42:17E como diz a Exu, né, se não a troca é roubo, né, então diria
- 42:23pra mim, tá tudo bem, né, tá tudo bem.
- 42:26Os primeiros poemas que você tá escrevendo é mesmo?
- 42:30Esses primeiros poemas ele comunica, né?
- 42:33Com outras pessoas, mas principalmente essa acolhida,
- 42:37né? A gente é nos acolhe muito
- 42:39pouco, né? A gente tem 11 tipo de
- 42:43criticidade, né? Então, nem aos outros, né, esse
- 42:47outro que a gente construiu dentro de nós, que fica ali nos
- 42:51massacrando, né, exigindo. É um lugar da perfeição.
- 42:58É que nos que nos trava, né? Porque quando a gente fica nessa
- 43:03busca, dessa perfeição que a gente não vai alcançar, porque a
- 43:06gente tem uma régua muito alta de para além da cobrança social,
- 43:12né? É desse racismo que nos
- 43:14invisibiliza. É.
- 43:18Diante de tudo isso, a gente foi criando muitos mecanismos de
- 43:21defesa que acaba. É nos travando, né?
- 43:26Nessa nesse período de de ser escritora, né?
- 43:30Há 24 anos, né, que o dato ali do da publicação do fanzine de
- 43:342001 é, você vai se silenciando mesmo, né?
- 43:42Se silenciando, né? É fazendo exigências que tá tudo
- 43:48bem errado, né? Tá tudo bem, é?
- 43:52Esse primeiro eu tinha uma, né? Quando você fala do segundo
- 43:55livro, né? Quando eu fiz o eu tinha feito
- 43:57pumba junto com akins, né? Então era foi um livro muito
- 44:01celebrado na nossa comunidade, né?
- 44:032 jovens pretos, é, eu falo que é o nosso best seller de cadeia,
- 44:06EE fundação casa. Foi um livro que circulou muito,
- 44:10né? É.
- 44:11É os poemas do a 15, né? Tipo, os cara mandavam, né?
- 44:16Nas cartas assim EE aí eu tinha muito medo do águas da cabaça.
- 44:21Eu falei, e aí é um livro que ele vem.
- 44:24Com provocações, né? Então essas citações são de
- 44:27mulheres negras. Só mulheres negras participaram
- 44:29do livro. Eu falo que a gente só não
- 44:30conseguiu controlar na gráfica, que a gente não tinha gráfica
- 44:33ainda, né? Ainda nem sei se já temos uma
- 44:35gráfica liderada aí por mulheres negras.
- 44:38Né? Aqui em São Paulo não dá pra
- 44:39criar, tem gente pra poder pra. Fazer tudo pra fazer tudo, né?
- 44:43É então a gente esse medo, né? Do segundo livro, né?
- 44:47Eu falei, não, esse segundo livro tem que estar na mesma
- 44:49qualidade ou acima, né? Então a gente cria essas essas
- 44:54exigências assim. Uma crítica tão grande, né?
- 44:56Com a gente mesmo que jamais teria, com outras mulheres,
- 44:59outras amigas. Né?
- 45:00Sim, a gente mesmo. Que tipo, a pessoa não precisa,
- 45:02nem que você mesmo já vai contando os defeitos do livro
- 45:06para as pessoas, né? Sem a necessidade.
- 45:09A pessoa tá achando incrível e você não.
- 45:11Mas tem isso aqui, né, tipo? É que.
- 45:13Eu não sei se é essas palavras, né?
- 45:17Alto sabotagem, né? Síndrome da professora combina
- 45:20com a gente, né? É, porém, a gente tem algo
- 45:23parecido com isso que eu acho que tem a ver com essa, com
- 45:27essa, com essa luta que a gente tem, né?
- 45:29De, de em relação esses luta, não enfrentamento, né, que é o
- 45:35racismo, o machismo, EEA, questão social, assim, isso dá
- 45:38uma. Eu tenho certeza que se eu
- 45:40fosse, se eu não tivesse que enfrentar isso é a literatura, a
- 45:46minha literatura chegaria em mais lugares e mais pessoas.
- 45:51Porém, também seria outra coisa, né?
- 45:53Outro processo, outra história. Os processos afetam também, né?
- 45:58E para você, Deise, como que é esse esse lugar?
- 46:00Assim, o que que você falaria para você de alguns anos atrás e
- 46:03que escolhas você acha que você fez?
- 46:05Que foram escolhas acertadas? Eu acho que eu diria que dá para
- 46:10ser mais que um hobby. Calma, calma, não perde, né?
- 46:16O valor é. O valor para si, né?
- 46:21Não vira um lugar de bater cartão.
- 46:25EE que tudo bem esperar, né? Esses 9 anos que que eu esperei,
- 46:32eles foram importantes para hoje eu lançar um livro que que eu
- 46:36respeito, né? Mais do que os outros
- 46:39respeitarem, que eu olhe, que eu não tenho vergonha de dizer que
- 46:41eu lancei o livro, né? Que eu que eu espalho ele com
- 46:45com prazer assim, então. É respeitar o tempo, né?
- 46:49O tempo das coisas e confiar também.
- 46:51Quando achar que chegou, vai embora.
- 46:55Eu acho que essa geração agora. É, eles estão mais dando
- 46:59conselho pra gente. E a Lilian está bem perto, é
- 47:02verdade, mas porque aqui, né? Tem muita gente abriu.
- 47:06Você vai e ele, as Mini bio é, fui campeão 32 vezes do islam
- 47:12tal. Estou há 2 anos na cena.
- 47:15Aí vai olhar aqui, você fica com vergonha de falar que você tem
- 47:1824 anos na cena. A pessoa fala assim, eu tenho 2
- 47:20anos na cena. A minha trajetória de 2 anos de
- 47:23muita luta. Caramba, mas é legal esse
- 47:27espaço, né? Claro, das meninas, das mulheres
- 47:29que estão. Vendo esse?
- 47:31Lugar e fala é isso, ocupa esse espaço, eu achei legal.
- 47:35David, você falou do tempo, né? Por exemplo, seu livro, você
- 47:37ficou 9 anos entre um livro e outro e quando a gente pensa
- 47:40isso do tempo hoje em dia, às vezes a gente se cobra um tempo
- 47:42muito rápido, um tempo muito veloz, a gente tem rede social,
- 47:45tempo de visibilidade mais instantânea, tem essa, às vezes
- 47:49até uma cobrança de AI tem que publicar livro todo ano, tem que
- 47:51publicar toda hora, tem que participar de tudo.
- 47:54Como vocês lidam com essa urgência de um tempo rápido hoje
- 47:56em dia pra. Tá num lugar que tem um tempo
- 47:59muito mais, talvez devagar, um tempo mais silencioso, que é o
- 48:02da escrito, da poesia. Como vocês conseguem equilibrar
- 48:05talvez esse lado mais profundo e devagar, com o lado mais rápido
- 48:08da visibilidade de estar nos lugares, estar nas redes?
- 48:11É um é um diálogo tranquilo para vocês ou não?
- 48:13É, eu tenho, né? Eu tenho essa trajetória aí de
- 48:1824 anos, mas eu. Vivo de escrita, né?
- 48:23De escrita e tudo que envolve ela, né?
- 48:25Seja dá aulas, né, seja participar de palestras, né, que
- 48:29as pessoas também criam imaginário que você vai não se
- 48:33vive da venda de livros, né? Para converso de conversa é
- 48:37ainda mais, né? É, por exemplo, quando você faz
- 48:41a produção independente, digamos que 50% foi o custo ali, né?
- 48:45Se você tem um edital, mesmo assim foi 50%.
- 48:48Você vai ter uma lucratividade ali de 50 a 40% quando você
- 48:51publica por uma editora, né? É comercial, é, existe um mito
- 48:57que é 10% que você recebe do valor de capa, né?
- 49:00Eu recebo 8% e já me falaram que é 8, a maioria recebe 8%, né?
- 49:05Então, de um livro de 50 BRL, você não recebe nem 5, né?
- 49:08Então você não vai viver do livro, né?
- 49:11Você vive do do que esse livro pode gerar.
- 49:14E eu sempre na minha cabeça eu falei.
- 49:17Eu não vou ser uma autora que publica todo ano, né?
- 49:21É não que eu não tivesse conteúdo pra isso, né?
- 49:25Hoje você falou, nossa, eu poderia falar de, mas porque eu
- 49:28eu penso em livros com que eles vão permanecer para além da
- 49:34minha existência física nesse plano agora, né?
- 49:37Que é quando eu olho, né? Hoje eu tava dando aula sobre,
- 49:41né? Tô fazendo um projeto que chama
- 49:43além do cartas ancestrais. E hoje a aula de hoje foi do
- 49:47livro da François. François ega é cartas para uma
- 49:51negra, que ela escreve cartas para Carolina lá em 1962, né?
- 49:54É o quarto despejo, é de 1960. E aí ela, né?
- 49:58Quando ela teve contato com uma matéria na revista, ela soube da
- 50:02existência da Carolina e passou a escrever cartas para Carolina
- 50:06sem nunca ter conhecido a Carolina.
- 50:11Né? E aí você fala assim, eu quero
- 50:13escrever esse tipo de livro que afete a pessoa que é, que tenha
- 50:18contato, né? Com essa, com essa obra, que ela
- 50:21seja mexida, né? Impactada, né?
- 50:26Então eu penso meus livros para além da minha, da minha
- 50:30existência, nesse. Nesse plano agora, né?
- 50:34Porque livros das minhas dancestrais literárias chegaram
- 50:37até mim, que me mobilizaram. E até hoje?
- 50:40Dialoga até hoje dialoga, né? Um livro também que me é um
- 50:45livro da Ruth Guimarães, né? Quando eu comecei a participar
- 50:48dos movimentos, eu sempre perguntava para minhas mais
- 50:51velhas, quem é a escritora de referências de vocês, né?
- 50:54E aí elas sempre me falavam algumas, falava da Carolina, mas
- 50:58falava da Ruth Guimarães. E é um livro que é o água Funda,
- 51:01que foi muito tempo esgotado. Eu falei, gente, que que
- 51:03aconteceu? Que essa mulher, o que que ela
- 51:06fez que apagaram a existência dela?
- 51:09Aí só quando a editora 34, em 2014, é é editou o livro
- 51:16novamente que ele passou a circular.
- 51:18Aí ele foi leitura obrigatória do vestibular no ano passado,
- 51:21né? Então um romance assim que você
- 51:23olha assim e fala, Mano, esse livro tinha que estar em todos
- 51:25os lugares que ela tem uma linguagem, né, da cultura
- 51:28popular. Ali Ela Foi aluna do do Mário de
- 51:30Andrade e aí você fala assim, será que porque Era Ela, e aí
- 51:34tem uma, ela é um dos exemplos, né?
- 51:36Quando a gente fala de literatura feita por mulheres
- 51:38negras, geralmente vai dizer, Ah, essa literatura tem pouca
- 51:41intelectualidade, né? Tipo, tem sempre uma.
- 51:44Deslegitimando e ela era uma mulher que traduzia para russo
- 51:48até hoje, Na Na escola de letras da USP, letras e latim.
- 51:54É ainda a tradução que ela fez, que é estudada lá, né?
- 51:58Então é esses disparadores, né? De achar que é uma mulher negra,
- 52:03que tem pouca intelectualidade. E aí uma obra como essa água
- 52:07Funda a gente não conhecer, né? De ficar tanto tempo esgotada,
- 52:12tanto tempo escondida, né? É uma loucura.
- 52:14E a gente tá vivendo um tempo que tem se reeditado, né?
- 52:17Muitos livros de alturas negras, principalmente das intelectuais,
- 52:21né? Livros mais teóricos também, né?
- 52:23Quando eu fiz graduação, Sueli Carneiro, a gente tinha o xerox
- 52:27lá e tinha medo de perder o xerox, né?
- 52:30Que se perdesse. Como conseguir outro, né?
- 52:33É verdade? Eu acho que a Deise até já falou
- 52:35um pouco sobre esse tempo, quando você fala, né, desses 9
- 52:37anos que você ficou e também não se apressou e que foram super
- 52:40importantes pra você conseguir escrever o que você escreveu
- 52:43agora, né? Então acho que dá dá Tempo Ao
- 52:46Tempo e você falou muito de tanto de autores que que te
- 52:49inspiram quando falou um pouco do de quem tá chegando, né?
- 52:52Dos mais jovens, o que que vocês acham que tem emergido, que tem
- 52:55Aparecido de melhor na literatura assim, de mais legal?
- 52:58E que lacunas vocês acham que podem ser preenchidas e que vão
- 53:01sendo preenchidas nos próximos tempos?
- 53:03Assim você acha isso? Vocês acham que tem esse espaço
- 53:05para preencher essas lacunas? Fala aí, jovem.
- 53:10Essa você deixou a mais difícil ela?
- 53:12Jogou no meu? Peito, né essa?
- 53:15É legal, talvez até, por exemplo, que contemporânea te
- 53:18influenciam, ou vocês? Que estão nos movimentos do
- 53:20sarau. Geralmente Slam é.
- 53:22Acho que tem surgido muita coisa nova e mais potente da
- 53:25literatura, né? Quando a gente pensa assim que
- 53:27antigamente falava, Ah, tudo já foi escrito, as pessoas falavam,
- 53:30né? Tudo já foi escrito e não, né.
- 53:33É das contemporâneas que eu tenho lido e que são grandes
- 53:37amigas também. Acho importante falar, né,
- 53:39dessas irmandades que vão se formando em torno da palavra e
- 53:42da palavra. Preta é Tatiana nascimento, lubi
- 53:47Prates, kalila das Mercês, Fabiana Carneiro, é, enfim, tem
- 53:53muita gente. Até difícil, né?
- 53:55É, eu não sei se tem. Aline Motta, né?
- 54:00Pensando na fotografia e na poesia e nessas linguagens que
- 54:03se que se permeiam na Dolores, que é uma escritora também da
- 54:10Bahia. Daisiane Barbosa, nossa, eu não
- 54:13sei se é tão bonito, né? Ver o quanto em várias
- 54:17linguagens é. Eu acho que por muito tempo você
- 54:21esperou que as mulheres negras também, que as mulheres negras,
- 54:24poetas, estivessem também só nesses ambientes.
- 54:27O do sarau e o do Slam, né? E essas mulheres todas que eu
- 54:31citei, tirando de alguma forma, sei lá, a Tati que fundou o Slam
- 54:36das Minas, né? O primeiro Slam das Minas foi
- 54:39ela que fundou lá em Brasília. Mas ela não é do Slam.
- 54:43É nenhuma dessas. Outras mulheres são do do Slam
- 54:47ou do sarau. Como um movimento tão forte, né?
- 54:50Como a geração de vocês assim e me incluindo nessa, né?
- 54:54Assim de ser. Um lugar que eu acho que ficou
- 54:57muito tempo restrito as mulheres brancas, sabe do nesse lugar um.
- 55:02Pouco o que a ele estava falando dessa intelectualidade, né?
- 55:05Exato, EE, de poder ter a esse lugar da reclusão, né?
- 55:10Dessa escritora que fica em casa, parece que nunca foi dado,
- 55:15né? As mulheres negras ainda que
- 55:17lógico, a gente sabe, sabe que sim, né?
- 55:19Mas como quase como um lugar de respeito, né?
- 55:22Para ter um respeito, tinha que estar nesses movimentos.
- 55:25Ligados AA cultura hip hop, né? De alguma forma, e que e que são
- 55:31lindos e que são legítimos, mas que a gente também.
- 55:34As lacunas que a gente quer ocupar, talvez menos que as
- 55:37lacunas da escrita, que eu acho que que as mulheres negras já
- 55:41estão em todas as áreas. São as lacunas de espaço mesmo,
- 55:45né? De território.
- 55:47Eu acho que é isso. Maravilha.
- 55:49E gente, a gente tá chegando um pouquinho mais pertinho do fim.
- 55:52Eu IA perguntar se vocês querem ler algum trecho.
- 55:54A elizandra peguei de surpresa agora porque a Dayse eu contei
- 55:57para ela antes do episódio. Falei, Deise, se quiserem alguma
- 55:59coisinha, já é reserva. Você quer ler algum trecho
- 56:01também, Elis? Socorro se quiser, acho que a.
- 56:05Deise pode até começar. Se eu tiver algo reservado.
- 56:07E eu posso pegar seu livro aqui para te dar 11.
- 56:11Apoio? Eu não sei se você tem.
- 56:12Algo de contos, essa de contos, né?
- 56:15Aí, apesar de 5 minutos. Lenda.
- 56:17É que tem um trechinho assim especial.
- 56:21Mas e aí? Vamos, vamos ver.
- 56:22Será que a Dayse começa? Mas se tiver alguma coisa de
- 56:25cor. É ainda sobre, né?
- 56:34As referências, né? Eu me coloquei muito nesse nesse
- 56:38lugar, né? De de visibilizar as mais
- 56:42velhas, mas também. Potencializar, né?
- 56:45Tanto que eu criei antologias, né?
- 56:46O próprio pretexto de mulheres negras, o literatura negra
- 56:49feminina, o narrativas pretas do sarau das pretas, que sempre foi
- 56:53nesse lugar de fomentar cenário, né?
- 56:55Tipo, tem eu, mas não tem só eu, né?
- 56:59Porque é um é uma faca de 2 gumes nesse lugar de.
- 57:06Que tentam nos colocar de única também, né?
- 57:08Aí aí fala assim, não, você é a única.
- 57:10E aí se você entra numa vaidade de achar que você é única, você
- 57:14invisibiliza todo um trabalho, né?
- 57:17Então, que é o que eu mencionei anteriormente, né, de estar em
- 57:20mesas, que geralmente é, eu era a única exceção, né?
- 57:24E aí hoje vendo, né, esse movimento que se formou, né?
- 57:28E de das mulheres. As mais jovens assim já tipo, o
- 57:33primeiro ano já publica o livro, né?
- 57:35Eu acho muito incrível assim, né?
- 57:37O quanto a nossa cena, o quanto a gente tem muitos nomes pra pra
- 57:41indicar, né? E aí, pensando nisso, eu tenho
- 57:44um poema que chama insubmissão, ancestral há tempos, todos os
- 57:49dias há uma voz assoprar em meus ouvidos, dias que me acalmam,
- 57:54pede paciência, espera, dias que me afoita, vai pra cima,
- 57:59afronte. Águas que recuam, águas que
- 58:03avançam, fogo que alastra, ventos que espalha, bambu que
- 58:08verga, mas não quebra, balança, mas não cai.
- 58:12Há um mapa ancestral na minha cabeça, com avenidas, ruas,
- 58:16becos e vielas. Estrada sem fins, com 1000
- 58:20andanças das pretas velhas que vieram antes, das pretas novas
- 58:24que acabaram de chegar, dos espíritos inquietos que não
- 58:29descansam. Há tempos, todos os dias, as
- 58:33ancestrais estão a. Nos guiar.
- 58:41Aqui, onde vocês enxergam apenas corpos endurecidos e
- 58:47marginalizados, onde vocês nos leem de forma rasa, onde vocês
- 58:54dizem que não há trabalho, como que consideram trabalho?
- 58:59Onde vocês, do alto de algum condomínio, acreditam que não há
- 59:03perfume no encontro do Rio com as matas?
- 59:07Onde vocês dizem que não é lugar das crianças ganharem corpo e
- 59:12subjetividade? Onde vocês insistem no veneno
- 59:16sem mais sensibilidade na língua para diferenciar olhos de
- 59:23temperos? Aqui.
- 59:26Onde vocês não esperam que tenha poesia, o feitiço se levanta.
- 59:33AI maravilha, acho que é o melhor, maior honra de ter 2
- 59:37poetas aqui. Aqui a gente pode terminar o
- 59:38episódio desse jeito, da onde vocês escutarem, então um
- 59:42pouquinho da Dayse, um pouquinho de Lizandra, gente, fiquei muito
- 59:45feliz de receber vocês aqui. Muito obrigada pela conversa,
- 59:48foi um papo muito gostoso, espero que vocês tenham gostado
- 59:51e procurem elas nas redes. Coloquem o nome de vocês, como a
- 59:54gente acha vocês online pode contar.
- 59:56O meu é arroba, aí é Daisy underline, a Serena, o meu.
- 1:00:04É arroba elisandra com z underline em bi Giba essa
- 1:00:08elisandra com s tá ficando mais famosa aqui.
- 1:00:11Então elisandra com z underline em bi Giba é MJIBA.
- 1:00:16Maravilha, gente. Então procurei a elisandra,
- 1:00:18procurei a Deise, procurem seus livros e muito obrigada gente.
- 1:00:21Fiquei feliz que vocês vieram. Obrigada você.
- 1:00:25Tchau, tchau, teu próximo episódio.