Latest / Peças Raras - Você em sintonia com o rádio / #310 Hino da Anistia, por Sérgio Essinger
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- 0:00O Aldir, como habitualmente fazíamos, ele vai até a
- 0:05minha casa, eu morava no jardim Botane, e aí então
- 0:09eu mostro o samba e conta essa história para ele.
- 0:13Bom, ele simplesmente pega aquele
- 0:17tema chapoiliano, projeta numa situação do Brasil
- 0:23naquele momento, nós estamos numa ditadura militar no
- 0:28ano de 1978, e então ele começa através do chapoilão
- 0:34contar a realidade brasileira naquele momento.
- 0:38Estamos falando de um momento
- 0:39político que estava quase explodindo tudo. Mestre
- 0:43Sara dos Mares trata de um momento que teve também uma
- 0:47comoção, mas a gente já conheceu a música com
- 0:50distanciamento histórico, e o Bêbado Equilibrista era
- 0:54quase que um rádio ao vivo, contando o que a
- 0:57gente estava vivendo. Então, para quem estava lá, para
- 1:01quem viveu uma reverberação daquela época ali, ganha
- 1:07contornos realistas mais vivos, assim, mais
- 1:13pronunciados. Então, naquele momento ali, elas
- 1:17se tornam o ínone para acelerar esse movimento do
- 1:23Brasil e das exceções para a democracia. Peças
- 1:30raras. Olá, tudo bem? Eu
- 1:35sou Marcelo Abude e estou de volta com nossas Peças
- 1:39Raras. Este é o terceiro e último
- 1:42episódio para reverenciar uma das grandes canções da
- 1:45MPB, o Bêbado e a Equilibrista. Depois
- 1:49de João Bosco e de João Marcelo Bosco, você confere
- 1:53a conversa com o jornalista e pesquisador musical,
- 1:57Silvio Essinger. Silvio, para começar pensando no
- 2:01Bêbado e a Equilibrista especificamente, como é que
- 2:05nasce essa música na obra do João Bosco e do Aldeer
- 2:12Black pensando na origem dessa música? Quando
- 2:16ela nasce, o que a gente pode pegar dessa origem de
- 2:21o Bêbado e a Equilibrista? O
- 2:25Bêbado e a Equilibrista nasce no momento do Brasil
- 2:28em que se vivia a ditadura militar, mas isso já no
- 2:32final de 77, então, quer dizer, você estava começando
- 2:37ali no movimento de distensão da ditadura,
- 2:42começava a pensar em respirar um pouco melhor,
- 2:48apesar de muitas coisas que aconteciam, ali ainda, de
- 2:52torturas, mas havia um sentimento de que os
- 2:57exilados um dia iam voltar, o governo militar ia ter
- 3:01que largar o osso, e o João Bosco tinha acabado de
- 3:07morrer, o Chaplin, se eu não me engano, Chaplin, e
- 3:11ele, sem fazer homenagem ao Chaplin, e ele estava com
- 3:15uma, começava a fazer uma música que tinha um pouco
- 3:18da melodia do Smile, que é a música do Chaplin para o
- 3:22filme, se eu não me engano, foi Luz da Cidade,
- 3:28e então estava fermentando na cabeça do João, e ele
- 3:32era um grande parceiro do Dyrr Blug, era aquela dupla
- 3:38de composição inseparável até aquele momento, e ele
- 3:43comentou qual dia sobre essa música que ele está
- 3:45fazendo, Chaplin e tal, e deu para o Dyrr, e ele
- 3:49pegou aquilo ali para fazer algo, ele já tomou aquilo
- 3:55ali, e resolveu fazer algo que falasse desse momento
- 3:58dentro do Brasil, o sonho de que os exilados
- 4:02voltassem, de que o Brasil tivesse um outro futuro,
- 4:08que não da ditadura, e aí veio a figura do irmão da
- 4:13Enfio, o Betinho, o Herbert Souza, que estava exilado,
- 4:19e aí saiu essa música, que além da menção, ela tem
- 4:26essa menção ao Luz dos Maio, do Chaplin, tem a
- 4:32menção ao irmão do Enfio, que era o Betinho, que
- 4:35estava exilado, que na época o Alde nem sabia o
- 4:40nome do irmão, não sabia que era o Betinho, era o
- 4:45Herbert, e essa música também tem uma menção ao
- 4:52Caí, que é um viaduto, que ele fala do viaduto da
- 4:58Paula de Fronten, que é um elevado que corre do
- 5:05centro, da região do Mague, em direção à boca do túnel
- 5:12Rebolsa, que é o grande via de ligação da zona sul
- 5:19com o centro, que em 1971 estava em obras de
- 5:24desaboma, protestoso, então era esse o viaduto que
- 5:27tinha caído, no qual a letra fala, e essa música
- 5:33foi entregue a Elis, que na época era quem gravava
- 5:38as músicas de Alde e João Bosco, era a grande cantora
- 5:45do Brasil, era a grande lançadora de músicas do
- 5:49Brasil, era a cantora pela qual todos os compositores
- 5:54sonhavam -se gravados, e era também a cantora que ia
- 5:58atrás dos novos compositores, de quem se
- 6:01tornaria grande na música popular brasileira, ela
- 6:05gravou e essa música coincidiu com, de fato, a
- 6:11abertura política, em 1979, os exilados voltando, e foi
- 6:18a música que convenceu, o Betinho fala que foi a
- 6:21música que, de fato, convenceu ele a voltar, era
- 6:24o hino da abertura, então a música teve esse caráter
- 6:28pela força melódica, pela ideia original do João,
- 6:38pelos rumos que o Alde deu para a letra, e pela
- 6:42interpretação da Elis, a grande cantora do Brasil,
- 6:45acho que é mais um desses exemplos, uma das grandes
- 6:49histórias, de como a arte colabora para mudar a
- 6:53história, fazer, promover grandes movimentos, ou pelo
- 6:59menos cristalizar sentimentos coletivos, a música popular
- 7:06tem essa força. O que você acredita que a
- 7:12citação de Smile, do Charlie Chaplin, acrescenta
- 7:16pensando na melodia da música, nesse início que
- 7:19ela tem? Pode ser uma opinião sua, não
- 7:21precisa ser algo de estudioso, mas pensando na
- 7:26música essa citação ao Smile, do Charlie Chaplin,
- 7:29o que você acha que acrescenta nesse caso? Acho
- 7:34que a citação ao Smile, aquela caixinha de música,
- 7:42ela se junta à menção, à equilibrista, ao bebo,
- 7:48dessas figuras que são cinematográficas, para compor
- 7:54um todo de narrativa que é muito visual, que é, em um
- 8:00último sentido, muito cinematográfico. É
- 8:02uma música que evoca um filme, é uma música que
- 8:09constrói, ela é um filme, se só. Bom,
- 8:15a música foi pensada pelo João Bosco, a melodia, e
- 8:19como era costumeiro, depois o Audir Blanc colocava a
- 8:22letra. Quando a Audir Blanc pega essa
- 8:25melodia e acrescenta a composição várias metáforas,
- 8:29citações, o que, na verdade, politicamente essa
- 8:34música estava dizendo? Acho que ela é mais explícita,
- 8:36até consegue passar pela censura, mesmo citando, de
- 8:40repente, o nome do Enfield, é um pouco surpreendente,
- 8:43até isso parece, mas o que, politicamente, essa
- 8:47música representa naquele momento em que ela é
- 8:51criada e com as metáforas do Audir Blanc? É
- 8:56uma música, primeiro, de muita poesia, que é a
- 9:02característica do Audir, poeta, aquele cara capaz de
- 9:07colocar em frases, em todo um sentimento ali que está
- 9:17represado, que você precisa materializar. E
- 9:21ele usa as metáforas como muitos compositorios usavam
- 9:26na época para censurar, mas ele faz isso com muita
- 9:30coragem, quando choram marias e clarícios, ali
- 9:34seria facilmente reconhecível a viúva do Vlad Mirizog,
- 9:41mas a forma com que ele constrói essa música, com o
- 9:46Chaplin, com o Levok, ele traz uma... sem
- 9:54falar em brutalidade, ele fala, caia a tarde, e
- 9:59feita um viaduto, e as pessoas já associam ao
- 10:01Paulo de Fronteiro, que foi uma tragédia, ele
- 10:03materializa brutalidade na letra sem explicitar, sem
- 10:12que a brutalidade fique impressa para todos os
- 10:19ouvidos. A brutalidade está evocada
- 10:22para os ouvidos de quem sabe da história. Eu
- 10:28acho que tem muita ingeniosidade poesia do
- 10:31Audir, no comunicar essa vontade, esse sentimento de
- 10:36que as coisas no Brasil tinham que mudar. O
- 10:43fato de ter sido gravado pela Elis Regina, que você
- 10:47comentou que era a lançadora mesmo desses
- 10:50compositores, até do próprio João Bosco e do Audir
- 10:52Blanc, que peso que isso tem para a música. Se
- 10:56fosse só gravado pelo João Bosco e sendo gravado pela
- 10:59Elis, dá para ter uma dimensão do quanto isso
- 11:02acrescenta para essa música? O
- 11:07Belé e a Equilibrista têm sido gravados pela Elis, e
- 11:12em primeiro lugar é a chancella da maior cantora
- 11:17do Brasil. É a garantia de que essa
- 11:21música vai ter todo o seu potencial de canção, levado
- 11:29ao extremo. A Elis vai ser a cantora que
- 11:36vai dar sentido a cada sílaba, a cada palavra
- 11:41daquela canção vai imprimir o sentimento correto. E
- 11:46tinha, além disso tudo, a história da Elis e do
- 11:50Enfil. Porque a Elis chegou a ser banida
- 11:58do mundo artístico pelo Enfil. Ela
- 12:05entrou no cemitério dos mortos vivos, né? O
- 12:08Enfil colocou a Elis no cemitério dos mortos vivos
- 12:14do Pascin, quando ela participou da Olimpíada do
- 12:20Exército por razões próprias, que ela também
- 12:23temia ditadura como todo mundo, era mãe, tinha um
- 12:27filho pequeno de homacello, então isso tudo era uma
- 12:31ameaça para ela. Sabia que mesmo o ser da maior
- 12:33cantora do Brasil não ia conseguir se livrar do
- 12:38terrorismo do Estado brasileiro naquele momento.
- 12:45Então o Enfil fez essa chade,
- 12:51que deixou a Elis muito chateada. E
- 12:53eu acho que ela tem gravado essa música pedindo
- 12:55a volta do irmão do Enfil. Acabou
- 12:58selando a paz entre os dois. Isso
- 13:02foi um gesto que veio principalmente de fazer um
- 13:16mal entendido em, sei lá, paz entre dois artistas
- 13:20brasileiros que queriam um Brasil diferente daquele que
- 13:28a gente vivia. E o quanto que essa música
- 13:32acabou sendo importante para a campanha da Anistia no
- 13:36Brasil? Depois de ter sido lançada já
- 13:39estávamos numa fase próxima dessa abertura política, mas
- 13:44ainda havia torturas, a Elis mesmo acaba
- 13:47acompanhando o caso de um sindicalista, não vou
- 13:50lembrar o nome, não de um estudante durante um tempo,
- 13:54mas enfim, o quanto que para a campanha da Anistia
- 13:57essa música acabou sendo efetivamente um hino e por
- 14:00quê? O Bem Vida Equilibrista é uma
- 14:05música que fala de esperança, que tem um tom
- 14:09musical que evoca esperança, então naquele momento ali
- 14:15ela se torna um hino, e torna a música que todo
- 14:19mundo canta para chamar os novos tempos, chamar a
- 14:27democracia, acelerar esse movimento do Brasil das
- 14:36exceções para a democracia. Bom,
- 14:41e ao dia no reencontro deles fizeram uma série de
- 14:44coisas, e eu acho que o Climax da reunião foi
- 14:48realmente o Beva da Equilibrista, de todas as
- 14:50novas composições dos dois, essa é a que você percebe
- 14:54o casamento inteiro dos dois, musical, sentimental,
- 15:01de letra, de tudo.